| Editorial
2007 será de homenagem
ao poeta popular Cuíca de Santo Amaro.
E a Fundação Cultural do Estado
da Bahia, através da Diretoria de
Literatura, antecipa as homenagens ao poeta
José Gomes, conhecido por Ele, O
Tal, Cuíca de Santo Amaro. Se vivo
estivesse, estaria completando 100 anos.
E a literatura popular deve muito ao poeta
baiano, que soube tão bem representar
essa arte vinda das narrativas orais.
Falar de Cuíca de Santo Amaro é
muito pouco quando se dispõe de um
espaço pequeno, mas o poeta se faz
presente na voz de Cuíca da Bahia,
artigo de Edilene Matos pesquisadora do
universo literário do cordelista;
ele, que sabia, como poucos, representar
a voz do povo através de seus versos
satíricos e de cunho social. E era
assim que Cuíca vendia os seus folhetos:
criticando, porque não tinha medo
das autoridades (por isso foi preso algumas
vezes), colocando-se no lugar do outro,
ou seja, da classe social menos favorecida.
E seguia divulgando a literatura popular
- arte que tem sua origem na Península
Ibérica, chegando ao Brasil no fim
do século XIX.
Seria oportuno se pudéssemos falar
somente de Cuíca de Santo Amaro,
mas, impossível, porque a literatura
de cordel possui representantes tão
importantes quanto José Gomes foi
para a Bahia. Como exemplo, podem ser citados
Rodolfo Coelho Cavalcante, Minelvino Francisco
da Silva, homenageados nesta edição
do LETRA. O primeiro, de Alagoas, radicado
na Bahia, teve uma produção
muito intensa; o segundo, de Mundo Novo
Bahia, criava suas histórias de encantamento
baseando-se nas narrativas transmitidas
de geração em geração.
E assim as histórias foram surgindo:
da transmissão oral e a partir de
temas religiosos, históricos, moralistas,
políticos, de cangaceiros ou bandidos
- classificação que varia,
a depender de cada enfoque dado por estudiosos.
Muito dessa cultura deve-se aos poetas populares
e ela ainda resiste, sim, à tecnologia
e à globalização. A
literatura de cordel está muito viva
na voz, aqui na Bahia, de Bule Bule, Antônio
Vieira e tantos outros (impossível
listar o nome de todos), e em muitas outras
vozes por aí afora, não somente
no Nordeste.
Nomes como os de Leandro Gomes de Barros,
Raimundo Santa Helena, João Martins
de Athayde, Expedito Sebastião da
Silva, Manoel de Almeida Filho, José
Costa Leite, Abraão Batista, Patativa
do Assaré, Eronildes Miranda dos
Santos; folheto como Pavão Misterioso
considerado o maior clássico da literatura
de cordel; temas como o do cangaço,
sobre a vida de padre Cícero e de
frei Damião, do governo de Getúlio
Vargas, só para citar alguns, não
poderiam deixar de ser mencionados, e também
a importância e o papel dos xilógrafos,
com suas xilogravuras que ilustram tão
bem a arte dos cordelistas. Aqui em Salvador,
um nome que não pode ser esquecido
é o do desenhista Sinésio
Alves, principal ilustrador dos folhetos
de Cuíca de Santo Amaro.
Um outro ponto a mencionar é quanto
à estrutura dos folhetos de cordel:
poemas com seis versos, contendo cada um
sete sílabas gênero preferido
de muitos poetas e repentistas; poemas com
dez versos, com sete sílabas poéticas,
e o martelo agalopado exemplificando somente
alguns dos gêneros da literatura de
folhetos de cordel: literatura conhecida,
na França, por littérature
de colportage, na Espanha por pliegos sueltos
e em Portugal por folhas soltas ou folhas
volantes ; e, quanto ao número de
páginas, folhetos com 8, 16, 32 e
64 cuja riqueza das estrofes encontra-se
no ritmo, na métrica, na rima e imaginação
dos seus criadores.
Portanto, o leitor do LETRA terá
a oportunidade de ler o artigo da Doutora
Edilene Matos, citado anteriormente, e que
vem publicado na seção Tecendo,
o texto Até fizeram um A.B.C!, de
Véronique Sémik especialista
em cultura popular; fragmentos dos folhetos
de cordel: Políticos demagogos e
homens sem palavras, de Cuíca de
Santo Amaro; A chegada de Lampião
ao céu, de Rodolfo Coelho Cavalcante,
e a História de Antônio Conselheiro
e a Guerra de Canudos, de Minelvino Francisco
Silva, bem como textos de Antônio
Vieira, Bule Bule, um conto recolhido por
Câmara Cascudo; poema de Patativa
do Assaré cantador sertanejo que
descobriu a literatura dos folhetos de cordel,
aprendendo a descrever a vida cotidiana
do sertão um dos principais representantes
da cultura popular nordestina; letra do
Cordel do Fogo Encantado grupo musical que
bebe da fonte dessa literatura para compor
suas letras. Na seção Outro
Olhar, fragmentos de entrevista de Ariano
Suassuna sobre o tema em questão.
Em Letra Viva, vem publicado Era o que me
faltava, de autoria de uma professora da
rede estadual de ensino. É um cordel.
Não poderia deixar de ser. Porque
a voz do cantador e a do cordelista ainda
se faz presente. Continua viva e dinâmica.
Encontrará, ainda, o leitor informações
referentes às ações
da Direl, na seção Trilhas,
e na página 11 o texto A literatura
popular e o acervo de folhetos de cordel
da Fundação Cultural do Estado
da Bahia.
Além de tudo, ou seja, da importância
da voz poética desses menestréis
e de se ter dedicado um número sobre
o tema Oralidade, enfatizando-se a produção
literária de alguns dos muitos poetas
da literatura de cordel, vale salientar
que esta arte popular tem sido motivo de
aprofundamento por parte de estudiosos,
não somente brasileiros como também
estrangeiros, quer seja em teses de mestrado
e/ou doutorado. É uma referência
para outras linguagens artísticas
a exemplo das adaptações que
vêm sendo feitas de textos de cordel
para o teatro. Essa literatura ainda resiste
ao tempo, não só no Brasil,
como na França, em Portugal este
último de onde se originou a arte
dos folhetos de cordel –, cultura
que foi bastante difundida por Raymond Cantel.
Cante aqui que eu canto lá, como
já dizia o poeta cearense Patativa
do Assaré, e boa leitura!
Graça Câmara

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