- Editorial

- Políticos demagogos e homens sem palavra.

- Cuíca da Bahia

- Outro Olhar

- A chegada de Lampeão no céu

- Setenta anos depois

- A literatura popular e o acervo de folhetos de cordel da fundação cultural do estado da bahia

- Quem tudo quer, tudo perde

- O cordel estradeiro

- Até fizeram um A.B.C.!

- Saudade

- Trechos do folheto História de Antônio Conselheiro e a Guerra de Canudos, de Minervino Francisco Silva

- Interagindo com o leitor

- Era o que me faltava!...

- Bibliografia Consultada

 

 

 

 

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Editorial

 

2007 será de homenagem ao poeta popular Cuíca de Santo Amaro. E a Fundação Cultural do Estado da Bahia, através da Diretoria de Literatura, antecipa as homenagens ao poeta José Gomes, conhecido por Ele, O Tal, Cuíca de Santo Amaro. Se vivo estivesse, estaria completando 100 anos. E a literatura popular deve muito ao poeta baiano, que soube tão bem representar essa arte vinda das narrativas orais.

Falar de Cuíca de Santo Amaro é muito pouco quando se dispõe de um espaço pequeno, mas o poeta se faz presente na voz de Cuíca da Bahia, artigo de Edilene Matos pesquisadora do universo literário do cordelista; ele, que sabia, como poucos, representar a voz do povo através de seus versos satíricos e de cunho social. E era assim que Cuíca vendia os seus folhetos: criticando, porque não tinha medo das autoridades (por isso foi preso algumas vezes), colocando-se no lugar do outro, ou seja, da classe social menos favorecida. E seguia divulgando a literatura popular - arte que tem sua origem na Península Ibérica, chegando ao Brasil no fim do século XIX.

Seria oportuno se pudéssemos falar somente de Cuíca de Santo Amaro, mas, impossível, porque a literatura de cordel possui representantes tão importantes quanto José Gomes foi para a Bahia. Como exemplo, podem ser citados Rodolfo Coelho Cavalcante, Minelvino Francisco da Silva, homenageados nesta edição do LETRA. O primeiro, de Alagoas, radicado na Bahia, teve uma produção muito intensa; o segundo, de Mundo Novo Bahia, criava suas histórias de encantamento baseando-se nas narrativas transmitidas de geração em geração. E assim as histórias foram surgindo: da transmissão oral e a partir de temas religiosos, históricos, moralistas, políticos, de cangaceiros ou bandidos - classificação que varia, a depender de cada enfoque dado por estudiosos.

Muito dessa cultura deve-se aos poetas populares e ela ainda resiste, sim, à tecnologia e à globalização. A literatura de cordel está muito viva na voz, aqui na Bahia, de Bule Bule, Antônio Vieira e tantos outros (impossível listar o nome de todos), e em muitas outras vozes por aí afora, não somente no Nordeste.

Nomes como os de Leandro Gomes de Barros, Raimundo Santa Helena, João Martins de Athayde, Expedito Sebastião da Silva, Manoel de Almeida Filho, José Costa Leite, Abraão Batista, Patativa do Assaré, Eronildes Miranda dos Santos; folheto como Pavão Misterioso considerado o maior clássico da literatura de cordel; temas como o do cangaço, sobre a vida de padre Cícero e de frei Damião, do governo de Getúlio Vargas, só para citar alguns, não poderiam deixar de ser mencionados, e também a importância e o papel dos xilógrafos, com suas xilogravuras que ilustram tão bem a arte dos cordelistas. Aqui em Salvador, um nome que não pode ser esquecido é o do desenhista Sinésio Alves, principal ilustrador dos folhetos de Cuíca de Santo Amaro.

Um outro ponto a mencionar é quanto à estrutura dos folhetos de cordel: poemas com seis versos, contendo cada um sete sílabas gênero preferido de muitos poetas e repentistas; poemas com dez versos, com sete sílabas poéticas, e o martelo agalopado exemplificando somente alguns dos gêneros da literatura de folhetos de cordel: literatura conhecida, na França, por littérature de colportage, na Espanha por pliegos sueltos e em Portugal por folhas soltas ou folhas volantes ; e, quanto ao número de páginas, folhetos com 8, 16, 32 e 64 cuja riqueza das estrofes encontra-se no ritmo, na métrica, na rima e imaginação dos seus criadores.

Portanto, o leitor do LETRA terá a oportunidade de ler o artigo da Doutora Edilene Matos, citado anteriormente, e que vem publicado na seção Tecendo, o texto Até fizeram um A.B.C!, de Véronique Sémik especialista em cultura popular; fragmentos dos folhetos de cordel: Políticos demagogos e homens sem palavras, de Cuíca de Santo Amaro; A chegada de Lampião ao céu, de Rodolfo Coelho Cavalcante, e a História de Antônio Conselheiro e a Guerra de Canudos, de Minelvino Francisco Silva, bem como textos de Antônio Vieira, Bule Bule, um conto recolhido por Câmara Cascudo; poema de Patativa do Assaré cantador sertanejo que descobriu a literatura dos folhetos de cordel, aprendendo a descrever a vida cotidiana do sertão um dos principais representantes da cultura popular nordestina; letra do Cordel do Fogo Encantado grupo musical que bebe da fonte dessa literatura para compor suas letras. Na seção Outro Olhar, fragmentos de entrevista de Ariano Suassuna sobre o tema em questão. Em Letra Viva, vem publicado Era o que me faltava, de autoria de uma professora da rede estadual de ensino. É um cordel. Não poderia deixar de ser. Porque a voz do cantador e a do cordelista ainda se faz presente. Continua viva e dinâmica. Encontrará, ainda, o leitor informações referentes às ações da Direl, na seção Trilhas, e na página 11 o texto A literatura popular e o acervo de folhetos de cordel da Fundação Cultural do Estado da Bahia.

Além de tudo, ou seja, da importância da voz poética desses menestréis e de se ter dedicado um número sobre o tema Oralidade, enfatizando-se a produção literária de alguns dos muitos poetas da literatura de cordel, vale salientar que esta arte popular tem sido motivo de aprofundamento por parte de estudiosos, não somente brasileiros como também estrangeiros, quer seja em teses de mestrado e/ou doutorado. É uma referência para outras linguagens artísticas a exemplo das adaptações que vêm sendo feitas de textos de cordel para o teatro. Essa literatura ainda resiste ao tempo, não só no Brasil, como na França, em Portugal este último de onde se originou a arte dos folhetos de cordel –, cultura que foi bastante difundida por Raymond Cantel. Cante aqui que eu canto lá, como já dizia o poeta cearense Patativa do Assaré, e boa leitura!

Graça Câmara

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