| Quem
tudo quer, tudo perde
Quando Nosso
Senhor andava no mundo chegou a uma casinha
de gente muito pobre e pediu de-comer e
de-beber. Os velhos que moravam aí
deram o que possuíam e agradaram
muito Nosso Senhor. Quando este ia embora,
abençoou-os e disse:
– Pelo que fizeram por mim, e como
são pobres e tementes a Deus, podem
pedir três coisas que serão
realizadas imediatamente.
O velho e a velha ficaram saltando de contentes.
À noite, foram jantar e conversaram
sobre o sucedido, meio desconfiados daquelas
promessas. A velha, vendo a pobreza da janta,
disse alto:
– O que eu queria agora era uma roda
de lingüiças assando naquele
fogo! Palavras não eram ditas e apareceu
uma roda de lingüiças assando
em cima das brasas.
O velho ficou tão zangado com o pedido
da mulher que não se conteve e gritou:
– E a minha vontade é que essa
lingüiça fique na ponta de sua
venta para você não ser maluca!
A lingüiça voou do fogo e grudou-se
na ponta do nariz da velhota que começou
a chorar e lastimar-se pela desgraça.
– Acuda-me, maridinho de minh'alma!
Acuda-me maridinho!
Tanto chorou e se lastimou que o velho marido
teve pena do caso e pediu que a lingüiça
saísse do nariz de sua mulher.
A lingüiça desapareceu.
Os três pedidos não serviram
de nada.
Francisco Cascudo 6
Natal – Rio Grande do Norte
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