Página anterior

Voltar um nível
 

 


 

 

 

Início > Revista da Bahia > Artes Plásticas

DO MODERNO AO CONTEMPORÂNEO
(NOTAS SOBRE O CIRCUITO DE ARTE NA BAHIA)
Almandrade


Objeto - sem título - madeira e tubos de papelão - 1978

A arte não fala de nada, ela faz do nada uma atitude poética. Qualquer coisa feita pela mão do artista é uma obra de arte; um objeto de êxtase que ignora explicações.

Um objeto discreto ou escandaloso, confuso ou divertido, assim é o objeto de arte. Pouco importa o que se pode falar sobre ele; da mesma forma que os títulos não informam definitivamente a idéia da coisa, o discurso sobre a arte não dá conta de seu objeto. A arte não imita nada, inventa realidades que ultrapassam aquilo que é revelado à contemplação.

 

O MODERNO TARDIO

No território das artes plásticas brasileiras, a Bahia passou por um processo de amadurecimento meio lento para absorver as linguagens modernas e promover uma renovação capaz de competir com a arte produzida nos grandes centros. O que marcava a produção baiana era uma tendência à regionalização, a busca de um “moderno regional” e uma recusa à universalidade.

A provinciana sociedade baiana não aceitava as sugestões renovadoras na arte. A adaptação às novidades modernas se deu de forma aleatória, dentro de um pacto com a temática local, nordestina. A contemporaneidade custou a chegar e acabou sendo diluída sem se assimilar ou abordar direito suas questões, como uma moda fácil que dominou a arte brasileira. Uma arte contemporânea sem história, instantânea e descartável.

Praticamente trinta anos depois dos debates em torno da arte conceitual e do aparecimento da chamada arte contemporânea no Brasil, recalcada nos anos 70 pelas próprias instituições culturais, um “outro” contemporâneo, surgido nos anos 90 passou a fazer parte do cotidiano dos salões, bienais, do mercado de arte, das grandes mostras oficiais e de iniciativa privada. Estamos vivendo um momento em que qualquer experiência cultural religiosa, sociológica, psicológica, etc., é incorporada ao campo da arte pelo reconhecimento de um curador ou de um outro profissional que detém algum poder sobre a cultura, (tudo que não se sabe direito o que é, é arte contemporânea). Como tudo de “novo” na arte já foi feito, o inconsciente moderno presente na arte contemporânea implora um “novo” e nesta busca insaciável do “novo” outras experiências de outros campos culturais são inseridos no meio de arte como uma novidade, deixando a arte de ser um saber específico para ser um divertimento ou um acessório cultural. Neste contexto, o regional, o exótico produzido fora dos grandes centros entra na história da arte contemporânea.


Objeto - 1977 - Frasco, lâmina de barbear e gaze

A ARTE E A CIDADE

Este é um tema ainda pouco conceituado na cidade do Salvador. A expropriação do espaço público, em nome da arte, faz da cidade mais um depósito de imagens que enfeitam o progresso, que enterrou e poluiu os rios, devastou as áreas verdes, substituiu a beleza que a cidade conquistou com o passar do tempo. Por que colorir, ou melhor, sujar de imagens todos os cantos da cidade? Por que esconder as alvenarias de pedras, incorporadas à memória urbana com as marcas fixadas pelo tempo? Para embelezar o caminho do automóvel?

Não diz respeito à arte a invasão de caricaturas, como certos monumentos e muros pintados, que mascaram ou são atributos de decoração da paisagem urbana. O artista tem uma responsabilidade e uma cumplicidade quando leva para a rua o seu trabalho. Não é simplesmente colocá-lo na praça sem passar por um processo de reflexão e adaptação ao espaço público. Vivemos num mundo dominado pela imagem e a arte deve ser a imagem que desvia o olhar para o pensamento e para o poético.

A arte e a rua são às vezes ligadas pelo mesmo equívoco. Os lugares públicos em Salvador, hoje em dia, são invadidos por determinadas imagens, sem dúvida fenômenos culturais, mas sem nenhuma preocupação conceptual e formal com a realidade urbana contemporânea e portanto distante daquilo que a História tem nos ensinado como arte. O pacto que vai determinar a inserção da arte na cidade não se reduz a finalidades utilitárias de estetizar o campo social. O espaço urbano é um suporte de visualidades estranhamente díspares e a intervenção da arte é um meio de gerar conhecimentos que alteram ou enriquecem a percepção do cotidiano. Ou de marcar a paisagem urbana com a referência do enigma que faz da cidade também um abrigo de imagens poéticas.

Para se defender da ameaça do tempo e sustentar uma demanda de eternidade, o homem inventa com a arte símbolos secretos que atravessam gerações e os deposita, entre outros compartimentos, no espaço urbano. As ruas e praças são incorporadas de significações singulares (imagens subjetivas), que revertem a banalização da imagem urbana, desenhada por um planejamento que desconhece ou desconsidera as fantasias e devaneios de seus usuários.


A VONTADE DE UMA VANGUARDA

Na segunda metade da década de 60, sem acompanhar as discussões entre Concretismo e Neoconcretismo, os primeiros movimentos vanguardistas no Brasil, houve na Bahia uma força de vontade de acompanhar as explosões da vanguarda brasileira. Não havia um procedimento de vanguarda, nem um pensamento. Era mais um inconformismo com a situação em que se encontrava a Bahia diante das inquietações dos anos 60: Contra-cultura, Tropicália, Experimentalismo e as rupturas dos suportes tradicionais. A vontade de intercâmbio com a vanguarda resultou nas Bienais da Bahia que contou com a participação das manifestações mais importantes da época: Concretismo, Neoconcretismo, Tropicália, fazendo de Salvador o centro das artes plásticas brasileiras. Chegou a provocar o cenário cultural local, contrário a uma atualização do meio de arte baiano. Como o regime político do final dos anos 60 era pouco favorável a liberdade cultural, surgiu o AI–5 e a 2ª Bienal foi fechada. Foi o fim de uma iniciativa que deixou a arte brasileira de luto.

“...Os lugares públicos em Salvador, hoje em dia, são invadidos por determinadas imagens, sem dúvida fenômenos culturais, mas sem nenhuma preocupação conceptual e formal com a realidade urbana contemporânea; portanto distante daquilo que a história tem nos ensinado como arte.”

Depois da 2ª Bienal Nacional em 68, uma iniciativa não só para integrar a Bahia no cenário nacional, como também para criar um outro centro de referência para a arte no Brasil, o circuito de arte na cidade do Salvador se restringiu a eventos locais de pequeno porte, quase sem importância para a arte brasileira. O Museu de Arte Moderna, criado em 1959, tendo como sua primeira diretora a arquiteta Lina Bardi, funcionando no foyer do Teatro Castro Alves, portanto situado num local de fácil acesso, era a principal instituição dos acontecimentos de artes plásticas do Estado da Bahia. A partir de 63 o museu foi transferido para o Solar do Unhão, então sem recursos, e funcionando em um local que, na época, era de difícil acesso. Por estes motivos, foi perdendo a importância chegando a ficar desativado por um período.

O mercado que teve sua primeira galeria criada na década de 50, a Galeria Oxumaré, pioneira na divulgação da arte moderna baiana, se manteve inexpressivo, incapaz de exercer o papel que lhe era destinado no processo cultural, aliado a uma ausência de crítica de arte e de colecionadores. A galeria Bazarte, uma iniciativa inédita em Salvador, nos anos 60, era o ponto de encontro e atelier de muitos artistas que estavam iniciando, incentivados pelo seu proprietário José Castro, muito mais um estimulador dos jovens artistas do que mesmo um marchand. A produção de arte girava em torno dos limites das primeiras manifestações modernistas, dentro de um esquema pictórico que reivindicava um retorno às chamadas raízes culturais, alheia às transformações que estavam acontecendo com a passagem da vanguarda para a contemporaneidade.

O CONTEMPORÂNEO E O CONCEITUAL

Sem um trânsito de informações, sem um centro de apoio e sem uma política cultural que viabilizasse possíveis linguagens experimentais, entramos na década de 70 sem acompanhar as mudanças significativas que estavam acontecendo na produção artística e na sua leitura.

Os artistas surgidos no início da década de 70, geração pós-AI–5, tinham poucas oportunidades de circular seu trabalho e acompanhar o que estava acontecendo nos grandes centros: as discussões provocadas pela arte conceitual e o reconhecimento do sistema da arte. Contavam apenas com os salões universitários, que não traziam nenhuma perspectiva de troca de informações. Eram salões domésticos, que mostravam a produção local, defasada, sem abrir intercâmbio com outros Estados. O Instituto Goethe ficou sendo o principal centro cultural da cidade, principalmente para as manifestações artísticas experimentais, até o início da década de 80. As iniciativas eram individuais e improvisadas, como a exposição organizada por Glei Melo, Paralelo 78, com a participação dos artistas Humberto Velame, Mário Cravo Neto, Almandrade e o próprio Glei Melo, no Foyer do Teatro Castro Alves, em 1978. O principal agente do circuito, do ponto de vista de investimentos econômicos, era o mercado estatal, mas direcionado para a geração surgida antes da década de 60. Sem uma política de ação cultural necessária à preservação e renovação do patrimônio cultural, a cidade do Salvador ficou aquém de uma cultura urbana.

Somente no final dos anos 70, o Museu de Arte Moderna reabre as portas para reassumir o seu papel no circuito da arte, com uma grande exposição, sem nenhuma seleção: a exposição cadastro, um equívoco, mas um equívoco necessário, uma vitrine da arte baiana. Desde as Bienais não havia acontecido uma mostra desse porte, do ponto de vista de quantidade, não de qualidade, incomparável com as Bienais.


Objeto – 1998
s/título – madeira policromada e frasco com chumbo

Participaram das Bienais as principais tendências da arte de vanguarda brasileira, em um outro contexto que diz respeito aos agitados anos 60. Essa reabertura do circuito de arte estava inserido dentro de um outro momento político pelo qual passava o País: abertura, anistia, liberdades democráticas. O governo do Estado, através da Fundação Cultural do Estado, inaugurava uma nova perspectiva cultural: O AI–5 fechou a Bienal, mas a chamada abertura política reabre o museu e devolve a liberdade de expressão. Era o início de uma nova etapa, a redemocratização do País. Mas a exposição cadastro nas suas melhores intenções mostrou que estávamos distante da contemporaneidade, salvo por alguns exemplos isolados. Não tínhamos nem entendido direito a modernidade. Estávamos às voltas com um moderno regional. A exposição O Sacrifício do Sentido realizada por mim em 1980, foi a primeira exposição individual de arte contemporânea, no Museu de Arte Moderna da Bahia, com o apoio da Fundação Cultural do Estado.


Escultura – 1998
s/título – ferro policromado

A POLÍTICA CULTURAL E O MERCADO DE ARTE

Sem recursos necessários, sem a continuidade de uma política cultural mais ampla, sem um circuito de informações, a arte fica a parte dos interesses e das prioridades do Estado. Na década de 80 o mercado começa a se estruturar como um dos suportes do meio de arte, mas só em meados dos anos 90 é que consegue absorver as produções mais recentes, que exigem um olhar mais apurado, e até estimula a produção contemporânea, ainda iniciante. A galeria ACBEU, criada em 75, veio se constituir num importante espaço de divulgação da produção de arte, não só para artistas emergentes, como também para artistas reconhecidos no mercado de arte. A Escola de Belas Artes da Universidade Federal da Bahia, a nossa principal escola de arte, se manteve à parte do processo cultural, sem tomar partido com relação às transformações das linguagens artísticas. Os Salões Baianos de 86 e 87 foram iniciativas para inserir a Bahia no cenário nacional e estabelecer um intercâmbio entre artistas, também sem continuidade. Reiniciado nos anos 90 com um novo formato, juntamente com outros projetos culturais e iniciativas de interesse nacional, fez do MAM da Bahia um dos principais museus do País. Diferente dos anos 70, quando era mais amador, o mercado passou a ocupar um lugar de destaque no ambiente cultural, que não pode ser encarado apenas como um movimentador da economia, na medida que participa da formação de um público consumidor, estimulando colecionadores.


Na última década, a participação da iniciativa privada foi importante também para a dinamização do circuito. O que mais se destacou foi a criação do Prêmio Copene de Artes Plásticas, patrocinando exposições de artistas que estavam contribuindo para a transformação da arte baiana e publicações como 100 Artistas Plásticos Baianos, iniciativa da Galeria Prova do Artista, que veio suprir uma carência de documentação das artes plásticas na Bahia. O marchand passa a desempenhar um papel decisivo para uma possível história da arte baiana. Claro que do ponto de vista do mercado. O mercado deixa de ser um comércio de compra e revenda de obras, e passa a investir para o reconhecimento do artista e criar, de certa forma, um referencial para o comprador de arte, oferecendo-lhe uma margem de segurança para o seu investimento.

Depois dos anos 70, no contexto nacional e internacional, o retorno da pintura promove o reencontro do artista com a emoção e o prazer de pintar. Um prazer e uma emoção solicitados pelo mercado em reação a um suposto hermetismo das linguagens conceituais que marcaram a década de 70, fazendo da arte contemporânea um fazer subjetivo, como se arte fosse um acessório psicológico ou sociológico. Troca-se de suporte nos anos 90 com o predomínio da tridimensionalidade: escultura, objeto, instalação, performance, etc., mas a arte não retoma a razão. Para uma condição pós-moderna, o suporte não é o essencial, mas o significado. Somente na segunda metade da década de 90, depois da banalização da arte contemporânea, o circuito de arte baiano absorve as novas linguagens que passam a conviver sem grandes atritos com as tradições locais.

Circula no mercado de arte as linguagens acadêmicas das décadas de 20 e 30, passando pelas décadas de 40 e 50, que correspondem ao primeiro contato da Bahia com o Movimento Moderno, até as manifestações em torno da contemporaneidade desenvolvidas nas últimas duas décadas.

De um lado temos uma produção determinada pela figuração regional que utiliza os esquemas formais das primeiras experiências modernas. De outro, uma produção de artistas contemporâneos ainda iniciantes, muitas vezes incentivada pela ótica dos salões de arte, cujos trabalhos carecem de uma formalização decisiva. No meio, temos uma geração intermediária, surgida nos finais da década de 60 e início de 70, com uma diversidade de estilos, reconhecida como uma referência significativa para a atualização das artes plásticas baianas.


Objeto – 1997
Dispositivo Para Voyeur Vidro, tubo PVC e borracha

Almandrade – (Antônio Luiz M. Andrade) Artista plástico, poeta, arquiteto e mestre em desenho urbano. Participou de diversas mostras coletivas e individuais no Brasil e no exterior. Tem trabalho em vários acervos particulares e públicos no País.

Próxima página

Início
   


Secretaria de Cultura
Fundação Cultural do Estado da Bahia
Praça Tomé de Souza, Palácio Rio Branco - Salvador - Bahia
CEP 40.020-010 Telefone: 3103-4000