Voltar um nível
 

 


 

 

 

Início > Revista da Bahia > Artes Plásticas

Entrevista
Juarez Paraíso


Pintor, escultor, gravador, desenhista, ilustrador, Juarez Marialva Tito Martins Paraíso é membro da Associação Brasileira de Críticos de Arte. Professor aposentado da Universidade Federal da Bahia, já ministrou e coordenou dezenas de cursos livres. Ensaísta e crítico de arte realizou estudos sobre artistas baianos por vários anos. Nos anos 60 e 70 escreveu artigos para os jornais A Tarde, Diário de Notícias e Tribuna da Bahia. Ainda na década de 60, foi organizador e apresentador de dois programas de artes plásticas na TV Itapoan.

Juarez Paraíso participou de exposições coletivas na Bahia, no Brasil e no exterior. Organizou a I e a II Bienal Nacional de Artes Plásticas da Bahia, é também membro do Conselho de Cultura do Estado da Bahia. Foi Diretor da Escola de Belas Artes da UFBa e é um dos criadores do Salão Nacional de Fotografia da Bahia.

Já teve seus trabalhos reproduzidos em vários catálogos, jornais da Bahia e do Brasil e em várias revistas, dentre elas: Mundo Hispânico, Revista da Cultura Brasileira, Veja, Revista de Fotografia e Grafismo. Domina todas as técnicas das Artes Plásticas e Gráficas.

Revista da Bahia – Considerando sua participação nos primeiros números da Revista da Bahia como vê sua trajetória até hoje?

Juarez Paraíso – O primeiro número da Revista da Bahia foi publicado em outubro de 1960, em pequeno formato de livro (22.5 x 16 cm), tendo na capa um desenho da artista Ligia Sampaio que fazia parte da primeira geração de artistas modernos da Bahia. A composição gráfica tinha apenas um bloco de texto e não continha ilustrações. Participaram deste numero Luiz Henrique Tavares, Machado Neto, Eugênio Gomes, José Calazans, Afonso Rui, Fernando Pedrão, Agostinho da Silva e Walter da Silveira.
Fui Diretor Artístico da Revista da Bahia nos números 3, 4, 5, 6 e 7, contando com a inestimável presença de Descartes Gramacho na supervisão gráfica.

Sempre com o apoio dos dois Diretores da Imprensa Oficial, Germano Machado e José Curvelo, a Revista da Bahia foi para os artistas e intelectuais da geração 60 o que significou os seis números da revista Cadernos da Bahia, 1948, 1952, para os primeiros modernistas. Convidado por dois diretores da Revista, Sóstrates Gentil e Alberto Silva, para ser responsável pela direção artística e técnica da Revista de pronto aceitei o desafio de diagramar e coordenar a parte de artes plásticas. De fato era o que faltava para todos nós, da segunda geração de artistas plásticos modernos, carentes de divulgação do nosso trabalho e de nosssas idéias. Experimentei novas dimensões para a revista e um planejamento gráfico mais solto e moderno. Os números da Revista sob a minha responsabilidade artística foram sobejamente enriquecidos com reproduções e ilustrações dos artistas Antônio Rebouças, Carlos Estivaleti, Jamison Pedra, Hansen Bahia, Luciano Figuerêdo, Ângelo Roberto, Edsoleda Santos, Abílio, Liana Bloisi, Nacif Ganem, Leonardo Alencar, Gilberto Oliveira, Henrique Oswald, Riolan Coutinho, Sônia Castro, Elizabete Rothers, Edízio Coelho, Betty King, Luiz Gonzaga, Francisco Liberato, Calazans Neto, Juarez Paraíso, Marioné Correia, Hélio Oliveira, José Maria, Sílvio Robatto, Genaro de Carvalho, Carlos Bastos, Carlos Augusto Bandeira, Mário Cravo Neto, Adam Firnekaes, Yêdamaria. Ainda com as artes plásticas, contribuíram com textos críticos, Mário Cravo Júnior, Mário Barata, Clarival do Prado Valadares, Adam Firnekaes, Harry Laus, Juarez Paraíso, Renato da Silveira, Walter Zanini, Wilson Rocha e Argan. As capas foram compostas com trabalhos dos artistas Sílvio Robatto, Genaro de Carvalho, Raimundo Oliveira, Humberto Rocha e artista popular de cordel (sem identificação).


Capa da 1ª Revista da Bahia – Desenho de Lígia Sampaio – 1960

Independente da parte visual A RB possuía um extraordinário elenco de colaboradores, cujo talento e importância o tempo só fez confirmar. São nomes como Florisvaldo Mattos, João Ubaldo Ribeiro, Paulo Gil Soares, Alberto Silva, Marco Santarrita, Alba Liberato, João Carlos Teixeira Gomes, Fred Souza Castro, Waldir Freitas de Oliveira, Lena Franca, Myriam Fraga, Ricardo Cruz, Remy de Souza, Hellington Rangel e Ildázio Tavares.

A sétima edição da Revista, 1967, mereceu o seguinte comentário do Diretor da Imprensa Oficial da Bahia, jornalista José Curvello: “ ...Este número tem um significado todo especial, porque atinge um objetivo de há muito perseguido. Deixa as fronteiras regionais para se lançar nacionalmente, submetendo-se a verdadeiro tête a tête com outros centos intelectuais. Representa a contribuição da Bahia ao movimento renovador da literatura. ...A Revista da Bahia é o exemplo do quanto é capaz a força criadora de jovens intelectuais que não almejam outra coisa senão a vitória da própria cultura. A Revista da Bahia chegou até o número 7 e permaneceu durante muito tempo sem ser publicada. No número de reabertura divulgou-se que se devia o seu fechamento a uma ordem do governo militar, o que não corresponde à verdade. A Revista foi suspensa na gestão de Junot Silveira, Diretor da IOB, quando foi imediatamente trocada por algumas publicações de “Plásticos Baianos”, dedicadas exclusivamente aos artistas plásticos modernos da primeira geração. A Revista teve o seu número 9 em junho de 1988 e em fins de 2004 foi publicado o número 39.

RB – Como foi sua atuação nas Bienais Nacionais de Artes Plásticas da Bahia? Há alguma possibilidade delas voltarem a ser realizadas?

JP – A Bienal Nacional de Artes Plásticas da Bahia, também chamada Bienal da Bahia, foi um dos mais importantes acontecimentos da História das Artes Plásticas da Bahia. Juntamente com o Museu de Arte Moderna, criado em 1959 e dirigido por Lina Bo Bardi, foi de grande valia no processo de internacionalização da Arte Moderna em Salvador. Logo após a inauguração da I Bienal da Bahia, Frederico Morais, crítico de Arte do Diário de Notícias da Guanabara, declarava que “A I Bienal Nacional de Artes Plásticas promoverá, fundamentalmente, a síntese entre a cultura artística do Norte e Sul do Brasil entre o folclore rural e urbano, desregionalizando e desfolclorizando a arte brasileira sediada na Bahia”. Foram duas as Bienais realizadas, 1966 e 1968, lastimavelmente interrompidas pelo próprio governo de Luiz Viana Filho, em virtude do clima criado pelo regime militar da época. Como Secretário Geral das duas Bienais, contei com uma extraordinária equipe de jovens artistas e profissionais de várias categorias, todos entusiasmados com aquela inusitada e surpreendente oportunidade de quebrar o isolamento em que se encontravam os artistas do Norte-Nordeste diante da desmedida concentração de realizações nacionais no Centro-Sul do País. O desafio foi enorme diante da complexidade e amplitude do evento, do tempo reduzido. Fizeram parte deste grupo Riolan Coutinho (primeiro secretário), Leonardo Alencar, Lúcia Marques, Mercedes Rosa, Newton Sobral e Humberto Rocha. Também fizeram parte da equipe com prestimosa contribuição, Marisa Gusmão, Mercedes Kruschevsky, Franscisco Liberato, Yêdamaria e Pasqualino Magnavita para a parte de restauração arquitetônica e o planejamento da montagem dos trabalhos. Clarival do Prado Valadares foi o nosso assessor principal na avaliação dos nomes dos artistas convidados e na constituição dos júris. A I Bienal da Bahia contou com o apoio irrestrito de Jorge Amado e de Genaro de Carvalho, tanto quanto com o apoio oficial dos professores Luiz Henrique Tavares e Antônio Loureiro de Souza.

A Bienal da Bahia foi idealizada pelo Secretario de Educação e Cultura do Governo Lomanto Júnior, professor Alaor Coutinho, certamente influenciado pela inteligência e sensibilidade do seu irmão, o artista plástico Riolan Coutinho.

As Bienais da Bahia contaram com o apoio e a presença de artistas consagrados e da vanguarda dos estados da Bahia, Ceará, Guanabara, São Paulo, Amazonas, Minas Gerais, Paraná, Pernambuco, Rio Grande do Sul, Brasília, Rio de Janeiro, Goiás, Paraíba, Santa Catarina e Sergipe.

A I BNAP, inaugurada em 28 de dezembro de 1966, no Convento do Carmo, apresentou 23 salas especiais, contou com a inscrição de 2.653 obras de 683 artistas, sendo aprovados 755 obras de 342 concorrentes, uma média de cortes correspondente a 71%.

A Bienal ofereceu uma excelente oportunidade de estudo aos especialistas de Artes Plásticas. Revelou novos valores, consagrando artistas emergentes. Transformou Salvador na capital artística do País e foi o único acontecimento artístico-cultural capaz de quebrar a hegemonia do eixo Rio – São Paulo que tanto tem desequilibrado o desenvolvimento dos demais estados do Brasil. O Salão Nacional de Belas Artes, atualmente de Artes Plásticas, nunca foi nacional, confinando-se aos interesses dos estados do Sul.
Visitadas por milhares de pessoas, as Bienais da Bahia foram comentadas e analisadas nacionalmente por dezenas de críticos de arte e centenas de artistas nos mais importantes jornais do País. No entanto, um dos estudos mais completos sobre a I Bienal de Salvador foi de autoria de Maria Eugênia Franco publicado no Estado de São Paulo em edições da época.

Na sua maioria, os artistas da década de 1960, eram oriundos da Escola de Belas Artes, professores e alunos que lutavam pela própria renovação da estrutura técnica e conceitual do ensino das artes plásticas. São artistas que optaram por um trabalho mais coletivo e didático e as suas realizações mais marcantes convergiam para uma maior expansão da Arte Moderna e pelo crescimento do número de artistas, o que bem comprovam a Revista da Bahia, a Galeria Convivium, a Associação dos Artistas Plásticos Modernos da Bahia, as Feiras de Arte Moderna em praça pública, os cursos, palestras, debates, simpósios e encontros da época.

Na época das Bienais da Bahia, existia em Salvador uma espécie de feudo cultural assentado nos Diários Associados e não foi por menos que a Presidência de Honra da I BNAP foi concedida a Assis Chateaubriand. E embora a idéia da Bienal tenha partido de uma área do Governo, de uma decisão política governamental, a sua organização e execução não dependeram de nenhum sistema de poder e dominação existente em Salvador, daí ser fácil deduzir o porquê das inúmeras dificuldades enfrentadas para a sua consecução. Também é necessário entender a realização e o fechamento da Bienal em função do contexto cultural e político dos anos 60. As conquistas culturais da época favoreceram o seu afloramento, tanto quanto a repressão da censura do governo militar o seu sepultamento. Os anos 60 representaram uma espécie de anos dourados, embora também de pesadelo, pelo menos para o terceiro mundo. Em nível regional, no entanto, os artistas baianos estavam em ebulição, conhecendo e praticando a internacionalização da Arte Moderna. A Escola de Belas Artes era em grande parte responsável pela formação de novos artistas modernos, realizando um notável trabalho na área de gravura. Um dos fatos mais relevantes na seleção dos artistas baianos para a I BNAP foi a aprovação de todos os gravadores inscritos, despertando a admiração de Harry Laus e Mário Schemberg, principalmente pela unidade das Gravuras apresentadas.

A BNAP promoveu um programa de TV e um excelente curso para Monitores.
A Bienal contou com o apoio dos principais críticos do Brasil como Harry Laus, Theon Spanudis, Jaime Maurício, Mário Schemberg, Frederico de Moraes, Mário Pedrosa, Maria Eugênia Fraco, Wilson Rocha, Clarival do Prado Valadares, Walter Zanini.

Ficou assentado que as Bienais seriam realizadas em monumentos arquitetônicos do patrimônio artístico e histórico de Salvador. Com isto seriam feitas as restaurações tão necessárias ao tempo em que seria oferecido um expressivo contraste entre o novo e o antigo. Com o extraordinário trabalho de restauração e adaptação arquitetônica de Pasqualino Magnavita, a I BNAP foi realizada no Convento do Carmo, a II BNAP no Convento da Lapa e a III BNAP já estava pensada para ser realizada no Convento do Desterro.

As reações de São Paulo foram imediatas, com a criação da Pré-Bienal.
Aprendemos com as críticas, as opiniões, os longos artigos realizados sobre a I BNAP. Assimilamos as recomendações para se nacionalizar mais ainda a Bienal, eliminando-se os prêmios estaduais. Eliminamos também a Seção de Artes Decorativas, e diminuímos o número de Salas Especiais, incorporando outras de grande importância como a de Arquitetura-Comunidade, Habitação, Fotografia e de Arte Popular. A Sala Especial de Artesanato, da Secretaria de Trabalho e Bem Estar Social, contendo toda a produção artesanal baiana, notadamente a cerâmica de Maragojipinho e os produtos de couro de Feira de Santana e do Sertão baiano. As Salas Especiais, por modificação do planejamento, não concorriam aos prêmios.

As Salas Especiais da II BNAP, confirmadas e montadas foram as de Antônio Bandeira , Ana Letícia, Roberto Magalhães, Fernando Jackson (Paraíba), João Câmara, Gilvan Samico, Carlos Scliar, Nelson Leirner. Houve também uma Sala Especial de Fotografia com artistas de vários estados do Brasil . A Bienal da Bahia sofreu outro revés com o pronunciamento do escultor Mário Cravo Júnior, em carta aberta dirigida ao governador Luiz Viana Filho (publicada no diário de Notícias de 7.10.68 e em outros jornais) manifestando-se radicalmente contra a Bienal Nacional de Artes Plásticas da Bahia e apresentando sua demissão incondicional do cargo de Conselheiro do Conselho Estadual de Cultura, por não concordar com a realização da Bienal.

Neste ano da II BNAP já se faziam notar as mudanças na produção dos artistas plásticos da Bahia, na modernização da linguagem. Pela primeira vez sentimos a presença de “uma certa consciência de classe” motivada pela recém-criada Associação dos Artistas Modernos da Bahia. Os artistas jovens trocavam idéias e se preparavam para a Bienal, sendo as referências maiores Lênio Braga, pelo prêmio da I BNAP com trabalhos que chamaram a atenção como Monalisa e Moneyleague e O Colecionador de Primitivos. Pode-se tocar de Reinaldo Eckenberger, primeiro artista pop de Salvador, além de Luciano Figueirêdo, Carlos Estivalett, Edsoleda Santos, Marlene Cardoso e Liana Bloise com suas experiências de Arte Ambiental e Objetos. E de Jamison Pedra e Renato da Silveira pela sua pintura intitulada O Astronauta, Nobreza Semi-Morta e Nobreza Morta-Viva. Neste ano de II BNAP foi realizada a I Feira Baiana de Arte Moderna, na Piedade, com a participação de quarenta artistas.
Ao todo, portanto, a II BNAP contou com a presença de 270 artistas com 1.005 obras, sem contar com os trabalhos da Sala de Artesanato e Arte Popular, tendo concorrido aos prêmios 141 artistas com 993 obras.

Para muitos a II Bienal da Bahia foi considerada superior à primeira em qualidade, pela seleção mais rigorosa, tendo sido o corte muito grande: 80% da Bahia, 60% de São Paulo, 45% de Pernambuco, 40% da Guanabara etc. O clima da II BNAP era de forte tensão e expectativa. Estava em pleno vigor o AI–5 e às vésperas da inauguração da Bienal, o caminhão carregado de obras rejeitadas pelo Júri de Seleção por serem primárias e destituídas de expressão estética, foi apreendido pela Polícia Federal, quando retornava pela Rua do Bispo em direção às dependências da Secretaria Geral, na Academia de Letras da Bahia, no Terreiro. Embora o seu destino fosse o recolhimento pela não aceitação do júri, para a Polícia Federal as obras continuavam sendo ofensivas. A partir daí, sucederam-se vários acontecimentos, muitas interpretações confusas e equívocas: 1º) Às vésperas da inauguração da I BNAP fomos entrevistados pelo jornalista Anísio Félix do Jornal da Bahia, quando declaramos, entre outras cousas, ser a censura inconcebível e monstruosa; 2º) Antes da inauguração da Bienal fomos procurados por alto funcionário da Secretaria de Educação dando ordens para que certas obras, por ele consideradas “subversivas”, fossem retiradas da Bienal, o que obviamente não fizemos porque aceitar a ordem seria negar a nossa própria vida como professor e artista, e um imperdoável desrespeito aos colegas e ao Júri de Seleção; 3º) A II Bienal Nacional de Artes Plásticas não foi fechada pela Polícia Federal, como se espalhou pelo Brasil afora, e sim pelo próprio Governo receoso de maiores represálias; 4º) Foram apreendidas, como “subversivas”, por incrível que pareça, diante do estardalhaço que se fez, apenas 10 obras de um conjunto de 1.005, sendo com isto toda a Bienal tachada de “comunista”, buscando-se justificar as nossas prisões. Os artistas excluídos foram Lênio Braga (três trabalhos), Antônio Manuel (um trabalho), Manuel Henrique (três trabalhos) e um desenho de Farnese Andrade, representante do Brasil na Bienal de Veneza; 5º) Durante quase um mês da Bienal fechada nuca houve “problemas técnicos” como alegavam funcionários do Governo e sim precaução e medo da repressão. A reabertura da Bienal, já sob a responsabilidade do Professor Remy de Souza, só se deu por pressões da sociedade, artistas e intelectuais; 6º) A Bienal Nacional de Artes Plásticas foi “suspensa” por decreto do governador Luiz Vianna Filho, o que significou, na prática, a sua lamentável extinção.

Logo em seguida ao fechamento da II BNAP pelo próprio Governador do Estado, fomos presos eu e o professor Luiz Henrique Dias Tavares, e recolhidos no 19º BC, no Cabula, onde permanecemos cerca de 30 dias. E o resto todo mundo já sabe, a inércia e o marasmo cultural em que nos encontramos, desde a presença em Salvador de Lina Bo Bardi e das Bienais da Bahia, sem nenhum grande movimento regional ou nacional capaz de nos livrar do imobilismo e da mesmice cultural na área das Artes Plásticas
É preciso considerar que as Bienais da Bahia surgiram dentro de um contexto muito especial que dificilmente se repetirá. Ela foi feita com muita coragem política e foi realizada pelos próprios artistas, pensando alto, em benefício da classe e não de grupos. É claro que se houvesse interesses políticos ela poderia ser reativada. Pessoalmente, acredito ser mais necessário a criação de um salão regional, um salão baiano para os baianos onde poderiam anualmente expor as suas obras e trocar experiências .

RB – O senhor foi praticamente um dos primeiros artistas a trabalhar com a arte mural na Bahia. Quais suas principais realizações e como essa arte vem evoluindo na Bahia ?

JP – Mural tem sido definido como obra de arte plástica realizada no muro, muro como suporte e parte integrante da Arquitetura. O Mural, por excelência seria, portanto, o afresco, que depende do muro como parte constituinte, uma vez que os pigmentos são inseridos na própria argamassa que o reveste. No entanto, muitas são as técnicas que também poderiam ter intimidade com o muro, como elementos gravados, incrustados ou afixados. A busca de integração do artista depende da sua compreensão quanto ao valor estético da superfície utilizada na arquitetura como um dos seus componentes de espressão estética. E como a Arquitetura Moderna e Pós-moderna não mais necessitam do muro como elemento de estrutura, de sustentação, por que utilizam esqueleto de concreto ou metal, o muro pode ser entendido como qualquer superfície integrante da arquitetura, daí a multiplicidade de recursos existentes atualmente, para a concepção do Mural. Mural pressupõe densidade dimensional, técnica e estética. Pressupõe integração com a arquitetura, do ponto de vista estilístico e temático, como regra explícita da história do muralismo universal, como exemplifica a genialidade de Miguel Ângelo, com a Capela Sixtina, e a de Le Corbusier, com a sua pintura e os seus baixos relevos de concreto aplicados à sua própria arquitetura. Mas também são brilhantes as exceções, como os Murais de Rivera, Siqueiros e Orozco, quando os murais canibalizam a arquitetura, utilizando-a como um mero suporte. Quando se fala em Mural entende-se compromisso social, político, cultural, técnico. O mural, como uma das formas da arte de escala físico-pública, exige do artista compromisso com o perceptor, como cidadão. É uma obra feita para o grande público. Será visto por milhares de pessoas e por muito tempo. Será, portanto, uma referência, um instrumento de educação da sensibilidade e do desenvolvimento cultural do indivíduo. Porisso mesmo é que o artista deverá expressar-se com maturidade estética, pesquisar e expressar devidamente a sua técnica, a sua temática seja o trabalho de concepção abstrata ou engajado. Tecnicamente, o Mural deve ter a mesma durabilidade que a Arquitetura, daí a necessidade do artista dominar devidamente as técnicas a serem adotadas, escolhendo as mais indicadas e convenientes para o espaço interno ou externo.

Antes de tudo, o Mural não é a ampliação do trabalho de cavalete, de câmara. Como o compromisso é orgânico, isto é, material e estético, o Mural exige uma tecnologia própria de composição espacial e cromática. Intuitiva ou conscientemente, o artista deverá aplicar recursos próprios para a concepção e realização do espaço plástico Mural, para a criação de suas sínteses estruturais e multiplicidade de tensões visuais, onde possam conviver eusinopsia (unidade) e complexibilidade (variedade). Em síntese, enquanto no trabalho de pequenas dimensões o campo de percepção se restringe, com o Mural se amplia, multiplicando-se as relações formais e cromáticas, moduladas inclusive pela própria ação do perceptor, que pode optar por centenas de pontos de vista para a visualização do trabalho.

A obra de arte, pela sua excelência, é um dos mais eficientes e eficazes instrumentos de educação da sensibilidade e do aprimoramento da consciência humana. A realização de um Mural, de uma escultura ou qualquer outro gênero de alcance público e social exige reflexão e seriedade do artista, tanto quanto do patrocinador, principalmente quando emana do poder público, governamental.

Em Salvador, existem importantes marcos da história do muralismo, em geral, da arte de escala físico-pública, destacando-se os importantes momentos de concentração das obras de vários artistas. A primeira manifestação, no plano individual aconteceu em 1949, com Carlos Bastos, no Anjo Azul, antigo centro de boêmia dos artistas e intelectuais baianos e no plano coletivo, com uma significativa reunião de artistas, no início da década de 1950, no Centro Educacional Carneiro Ribeiro, Caixa D’Água, graças à maturidade política do governador Otávio Mangabeira, ao gênio de Anísio Teixeira e à sensibilidade do arquiteto Diógenes Rebouças. Embora atualmente em precárias condições materiais, lá se encontram murais de Mário Cravo Júnior, Carybé, Maria Célia, Genner Augusto e Mangano com técnicas de têmpera e afresco, reunindo soluções composicionais que bem podem elucidar sobre as principais preocupações dos primeiros artistas modernos da Bahia, convergidas para a arte do mural. A Segunda grande concentração de obras de arte monumental encontra-se no Centro Administrativo, promovido pelo Governador Antônio Carlos Magalhães, entre 1971 e 1974, e que contou com a curadoria de Jorge Amado.

Antes de tudo falta a lei de obrigatoriedade da presença da arte monumental nos espaços e edifícios públicos e principalmente falta licitação pública na área das artes plásticas.

Na verdade, falta qualquer incentivo para a realização de obras de arte de escala físico-publica, murais, calçadões, esculturas, sinalizações, etc. isto é, trabalhos que pelas suas dimensões e compromissos técnicos, estéticos e temáticos, possam ser integrados nos espaços públicos, internos ou externos, governamentais ou privados. Havendo maior preparo cultural dos governantes, percepção estética, tanto quanto pressão dos próprios artistas, organizados em associações ou, melhor ainda, em sindicatos, a presença da obra de arte na cidade poderá ser constante.

Já realizei uma serie de murais, através de concursos públicos ou a convite de particulares. Sempre procurei executar os murais segundo os conceitos e técnicas composicionais que defendo para este gênero de artes plásticas. O espaço deste depoimento não permite uma análise sobre eles, mas destaco os que foram destruídos pela intolerância dos Evangélicos, o do Cine Bahia pela Igreja Universal, os murais do Cine Art I e II (Politeama) pela Igreja Renascer em Cristo. Foram também destruídos o trabalho de Arte Ambiental do Cine Tupy pela CIC, empresa de cinema, e os calçadões da Praça da Sé pela própria Prefeitura de Salvador. Então vejam só! Não existe qualquer tipo de incentivo para a criação de murais, mas, em descompensação, nem qualquer proteção para os poucos existentes. Carlos Bastos, Mário Cravo e outros artistas já sofreram do mesmo problema.

RB – Qual a contribuição da Escola de Belas Artes da UFBA para o desenvolvimento das artes plásticas da Bahia?

JP – Com exceção do reitorado de Edgar Santos, Belas Artes sempre lutou pela sua sobrevivência, enfrentando uma injusta política de distribuição de verbas onde tem predominado o preconceito de escolas consideradas prioritárias, funcionando como instrumento de pressão, o que também desconsidera o seu valor histórico, pois é a segunda unidade de ensino da Universidade Federal da Bahia, (a sua fundação deu-se em 17 de dezembro de 1877, por Miguel Navarro Y Cañizares). Ainda mais, ela é a segunda escola Superior do ensino das “Belas Artes” do Brasil. Porém, o mais importante é que a participação da Escola de Belas Artes na produção artístico-cultural da comunidade baiana e nordestina sempre foi constante e significativa. Do seu período “Acadêmico”, que vai da sua fundação até fins da década de cinqüenta, destacam-se nomes que ganharam notoriedade nacional, como Lopes Rodrigues, Presciliano Silva, Pascoal Del Chirico, Ismael de Barros, Mendonça Filho, Alberto Valença e Emídio Magalhães. A partir da presença de Maria Célia Calmon, revolucionária precursora do ensino moderno e interativo, e de vários e históricos acontecimentos, como o curso de extensão de gravura de Mário Cravo Jr., em 1957, e a exposição coletiva dos novos professores e alunos no Belvedere da Sé, logo após a saída de Arquitetura da Escola em 1959, tem início a reação ao ensino acadêmico. Na década de 60, a Escola passa a ter uma indiscutível hegemonia no processo da “Internacionalização da Arte Moderna” na Bahia, pela ativa participação do seu quadro docente renovado, constituído por artistas da segunda geração de modernistas da Bahia. A partir desta época, embora com algumas oposições renitentes, a Escola deixou de navegar contra as inovações externas e passou a participar dos processos de atualização da criação artística, pois os artistas mais criativos da arte moderna local constituíam o seu próprio quadro docente. Desde esta época, motivados pelos acontecimentos nacionais e internacionais mais significativos, através de inúmeros encontros, debates, simpósios, etc., procurou-se uma nova metodologia, sempre com a participação dos professores mais esclarecidos. Ao contrário do ensino acadêmico, pautado na estética do Neoclássico, o ensino libertador do espírito criativo moderno é bastante complexo, principalmente porque não pode ser ancorado em nenhum exemplo de estilos ou poéticas já consagrados. E foi justamente isto que os mais esclarecidos entenderam e perseguiram, da década de 60 até fins da década de 90, quando a escola declina, perigosamente, para o desentendimento e a desorganização interna, ainda mais quando acentuada pela política de desestabilização do Presidente Fernando Henrique Cardoso aplicada à Universidade Brasileira, causando a debandada dos mestres e a substituição de professores experientes por alunos recém formados. O sucesso da Escola, em todas estas décadas se reflete, de imediato, na presença dos seus professores e alunos nos principais acontecimentos e atividades artísticas da comunidade. É quando encontramos os artistas vinculados à Escola nos Salões do Museu de Arte Moderna, nas Feiras de Arte, Nos Salões Regionais de Artes Plásticas da Fundação Cultural do Estado da Bahia, em exposições nacionais, nos muros da Cidade, nas mais importantes Galerias de Arte e, quase sempre, arrecadando importantes premiações e o reconhecimento público. A ação da Escola ampliou-se significativamente no processo de integração com a comunidade através atividades de extensão, como cursos livres, exposições itinerantes, feiras de arte, palestras, conferências, debates etc., e na colaboração constante com outras instituições culturais, como o Instituto Cultural Brasil-Alemanha – ICBA, o Departamento Cultural da UFBA, o Museu de Arte Moderna da Bahia, com a participação dos seus professores na criação e implantação das Oficinas de Expressão Plástica, concebidas por Francisco Liberato e Pasqualino Magnavita.Também é fato relevante a ação dos professores de Desenho e Plástica, formados pela EBA, a partir de 3 de abril de 1959, junto aos colégios particulares e públicos. Na década de 60 destacam-se a realização das duas Bienais Nacionais, 1966, 1968, a criação da Galeria Convivium, destinada a exposições da vanguarda local e nacional, a publicação de vários números da Revista da Bahia, a criação da Associação dos Artistas Modernos da Bahia, sempre com a vinculação de professores e artistas da EBA. Foi igualmente importante o surgimento de um movimento de criação na área da Gravura, chegando a ser cognominado de “Escola Baiana de Gravura”, pelas características técnicas oriundas do emprego do compensado e da prensa de água forte como meio de impressão.

“...Na década de sessenta, a Escola passa a ter uma indiscutível hegemonia no processo da “Internacionalização da Arte Moderna” na Bahia, pela ativa participação do seu quadro docente renovado, constituído por artistas da segunda geração de modernistas da Bahia...”

Na década de 70, deixando o casarão da rua 28 de Setembro e após o interregno de 1969 nas dependências do Convento de Santa Tereza, no Museu de Arte Sacra, a Escola foi transferida para as suas atuais dependências, na rua Araújo Pinho, Canela. É quando tem início a utilização da Galeria Canizares expondo artistas locais, nacionais e internacionais, e revelando inúmeros talentos oriundos da própria Escola, principalmente com os Salões Universitários, sob a coordenação de Ivo Vellame.

No reitorado do professor Macêdo Costa, com a minha coordenação, foi realizado um painel coletivo para a Biblioteca Central da UFBA. com a contribuição individual de todos os artistas baianos que tivessem tido vinculação com a EBA, sendo o resultado prodigioso, o que bem comprova a importância histórica e cultural da Escola de Belas Artes. Na década de 1980, na gestão de Márcia Magno, foram criados os cursos de Desenho Industrial, o superior de Decoração, o Mestrado e a Estação de Informática

A presença da Escola tem sido também importante na estrutura visual da cidade por ocasião dos grandes acontecimentos populares. Com as decorações de carnaval, proveniente de concorrência pública, a partir de 1965, os professores, alunos e funcionários da EBA, sempre estiveram presentes, quando a Escola era transformado em um grande canteiro de obras. Artistas professores da EBA também têm sido responsáveis por inúmeras esculturas e murais existentes na cidade do Salvador. Igualmente importante tem sido a Escola na área da restauração de obras de arte e monumentos públicos, pela ação dos seus inúmeros restauradores, como exemplos, João Rescala, Ana Maria Villar e José Dirson Argôlo.

No plano intelectual a produção da Escola tem sido relevante, destacando-se as diversas pesquisas e teses já realizadas e artigos publicado nos jornais e revistas especializadas, principalmente pelos professores de História da Arte, notadamente Maria Helena Flexor.
Participei das mudanças ideológicas e curriculares da EBA, desde a década de 1960 até 1999. Introduzi disciplinas como Percepção Visual e Composição Plástica, fui autor da proposta da eliminação do ensino baseado na cópia de modelos de gêsso, participei de todos os seminários de pró-reformulação do ensino das artes, participei da criação dos novos cursos e de todas as atividades acadêmicas envolvendo a escola. Fui representante da Escola em todos os conselhos superiores da UFBA. Fui chefe de Departamento , Coordenador de Curso e Diretor da Escola. Aposentei-me após 42 anos de dedicação á Universidade. Concederam-me o título de Professor Emérito, o que muito me orgulha, tanto quanto tenho consciência do dever cumprido.

RB - Faça um comentário sobre o movimento de galerias de artes na Bahia dos anos 50 para cá.

JP – No inicio do movi-mento de arte moderna de Salvador, raros eram os espaços para exposições e inicialmente os artistas contavam apenas com as instituições públicas que prestaram um oportuno serviço, cedendo as suas salas e salões. Independente da exposição de José Guimarães de 1932, no jornal A Tarde, a primeira exposição coletiva de arte moderna em Salvador foi promovida em 1944 por Jorge Amado, Manuel Martins e Odorico Tavares, justamente na Biblioteca do Estado, de excelente localização na Praça Municipal. As exposições eram bem freqüentadas e para ver um Interior do mestre Presciliano Silva tive que entrar numa longa fila de espera. Nesta Galeria da Biblioteca, Carlos Bastos realizou individual em 1947 e Genaro de Carvalho em 1949. A minha primeira individual foi também realizada neste espaço, em 1960, com desenhos abstratos, a bico de pena.
No Instituto Geográfico e Histórico da Bahia foi realizada em 1950 outra importante exposição de arte moderna Novos Artistas Baianos, com Mário Cravo Júnior, Lígia Sampaio, Genner Augusto e Rubem Valentim.

Segundo o testemunho de Thales de Azevedo, a ACBEU demonstra o seu interesse pelas Artes Plásticas desde a sua própria fundação, 1º de agosto de 1941, quando realizou uma exposição de xilogravuras com artistas brasileiros e norte-americanos, no Instituto Histórico e Geográfico da Bahia.

A Escola de Belas Artes da Rua 28 de Setembro possuía um grande salão que, no início da década de 60 e no processo de transformação de sua estrutura acadêmica, foi adaptado para ser uma galeria, principalmente para exposições de arte moderna, aproximando os alunos das novas linguagens, das novas poéticas. Com a mudança da Escola em 1970 para a Rua Araújo Pinho, Canela, foi a ela incorporado um prédio que se transformou na Galeria Cañizares. A Galeria Cañizares tem sido peça fundamental na atualização da Escola, pela importância de suas atividades e exposições, como os Salões Universitários e os Salões Nacionais de Fotografia.

“Participei das mudanças ideológicas e curriculares da EBA, desde a década de 1960 até 1999. Introduzi disciplinas como Percepção Visual e Composição Plástica, fui autor da proposta da eliminação do ensino baseado na copia de modelos de gesso, participei de todos os seminários de pró-reformulação do ensino das artes...”

No trabalho de formação e atualização da estrutura artística de Salvador deve ser citado o Instituto Cultural Brasil-Alemanha. O ICBA contou com o inestimável trabalho do artista plástico e musico Adam Firnekaes, orientando a realização de importantes exposições e lecionando importantes cursos como o dePintura Experimental para Leigos. O ICBA viria a ser com a direção de Roland Schafnner o mais importante centro de resistência cultural ao marasmo e à esterilidade imposta pela censura do AI–5. Foi absolutamente importante para os baianos na década de 70.

Ainda existem muitos a citar, todos relevantes nas suas realizações, como os espaços utilizados para exposições da USIS, Belvedere da Sé, Aliança Francesa, Gabinete Português de Leitura, Teatro Vila Velha, etc.

O aparecimento de novos artistas, autodidatas ou relacionados com a Escola de Belas Artes e a modernização da cidade do Salvador propiciada pelo desenvolvimento econômico da Bahia, criação da Petrobrás, Pólo Petroquímico, motivaram o aparecimento de Galerias Comerciais. E nesta categoria a Oxumaré foi a primeira.

A Galeria Oxumaré foi dirigida por Carlos Eduardo da Rocha. Deu guarida a vários artistas, como Rubem Valentim e Carl Heins Hansen. E realizou importantes exposições de artistas modernos como Genaro de Carvalho, Raimundo Oliveira, Carlos Bastos. Funcionou durante toda a década de 50 e inicio de 1960.

Muitas eram as Galerias existentes na época das Bienais da Bahia, gerando uma heterogênea proliferação de artistas, destacando-se a Galeria da USIS, Galeria dos Novos, Sodré Galeria, Galeria Bahiarte, Le Dome Galeria de Arte. Mas, contribuindo e acelerando a atualização do meio artístico no setor da Arte Moderna, sobressaiam-se três galerias: a Galeria Querino, que contava com o apoio dos Diários Associados, a Galeria Convivium e a Galeria Bazarte. A Querino era de propriedade de Renot, colunista social do Diário de Noticias. Lançou muitos artistas primitivos, realizou muitas exposições de artistas consagrados, como Aldemir Martins, e muitos artistas japoneses de São Paulo, abstratos líricos. Era a galeria de maior sucesso comercial de Salvador. Todas organizaram importantes mostras e atividades artísticas, sendo que a Galeria Convivium, de propriedade de Albertoni e Liana Bloisi e por mim dirigida não fazia concessões, não participando da promoção em larga escala de artistas primitivos, característica da época, ou da exploração do folclore baiano como recurso para vender quadros. A Galeria Convivium faliu por dedicar-se principalmente à arte de vanguarda e por promover acontecimentos não lucrativos, ao contrário, onerosos pela sua complexidade, como a exposição “Tempo Brasileiro em Arte” com artistas que participaram do Grupo Opinião e Proposta 65, seguindo a linha do realismo crítico. Foi a primeira exposição realizada em Salvador situando vários caminhos estilísticos da Nova Figuração, com trabalhos de Gerchmann, Francisco Liberato, Antônio Dias, Adriano D’Aquino, Carlos Vergara, Dilenny Campos, Maria do Carmo Seco, Pedro Escosteguy, Renato Landim, Vera Sancigolo, Roberto Magalhães, Suzana Lôbo e outros. Mas seria injusto não citar a Galeria Bazarte e o Instituto Cultural Brasil - Alemanha neste trabalho de formação e atualização da estrutura artística de Salvador nesta época. A Bazarte com a generosidade do Senhor Castro ajudando a dezenas de jovens artistas como hóspedes de sua Galeria, com a realização de exposições, debates e palestras. A Galeria Bazarte lançou vários álbuns de gravuras, com Adam Firnekaes, Ângelo Hodick, Eckenberger, Édison da Luz, Edvaldo Souza, Eduardo Reis, Estivalet, Gilberto Oliveira, Gley, Jamison Pedra, Kabá, Sônia Castro, Terciliano Júnior.

Ainda na década de 1960 destaca-se a Galeria 13 de Deraldo Lima, a primeira do Pelourinho, 1963. Foi inaugurada com 22 artistas, apresentando logo depois fotografias de Lázaro Torres e o primeiro happening de Salvador com Francisco Liberato, Juarez Paraíso, Áureo Abílio, Eckenberg, Maria Ângela Di Carlo, Pedro Ivo e outros artistas.

A partir da década de 70 surgem inúmeras Galerias, embora poucas resistindo às pressões econômicas de um mercado de arte fragilizado pela ausência de colecionadores, da falta de cultura artística das classes mais abastadas e do fraco poder aquisitivo da classe média. Na verdade, Salvador sempre teve um mercado de arte frágil, inconsistente. Na década de 60 houve uma verdadeira fábrica de primitivos e ainda se faz muita coisa com selo de arte ingênua para vender aos turistas como “lembrança da Bahia”. Também são vendáveis os artistas oficiais, aqueles já consagrados pela mídia, opinião pública e que sempre têm o beneplácito das encomendas do Estado. E, em termos de valorização de mercado das obras de arte sempre houve contrafações : obras de valor artístico duvidoso, usadas com objeto de decoração ou de ostentação, sempre superfaturadas em detrimento da arte de pesquisa e de vanguarda. Mas muitas galerias se destacaram e se destacam, pelo nível de suas promoções e profissionalismo, como a Galeria O Cavalete de Jacy Brito, Prova do Artista de Denílson, MCR Galeria de Arte, Roberto Alban Galeria de Arte e Paulo Darzé Galeria de Arte. Matilde Matos, com a sua vasta cultura estética e experiência como crítica de arte, contando com a prestimosa colaboração da filha Clotilde, tem imprimido um cunho especial e valioso nas suas realizações á frente da EBEC Galeria de Arte. Também é importante ressaltar o trabalho de Dílson Midley e de Stela Carozzo à frente da Galeria da Associação Cultural Brasil-Estados Unidos. A Galeria ACBEU, criada em 1975, é uma das mais importantes de Salvador, pela dinâmica de sua atuação junto aos artistas emergentes, aos artistas do interior, pela qualidade de suas exposições com artistas regionais, nacionais e estrangeiros. Atualmente é dirigida pela gravadora Eneida Sanches.

Dentre outras lacunas, certamente uma das maiores seria omitir a importância do Conjunto Cultural da Caixa, dos Correios e do Banco do Brasil, no desenvolvimento da cultura artística da Bahia.

RB - Em quantas gerações as artes plásticas na Bahia podem ser enquadradas e quais os seus principais grupos e representantes?

JP – Referente à Arte Moderna, quatro ou cinco gerações. A primeira geração, a dos primeiros artistas modernos, entre as décadas de 40 e 60. A segunda, artistas que surgiram com destaque na década de 60 e a terceira artistas da década de 70. A quarta e a quinta, ainda sem definição ultimada, a partir dos anos. 80. Nada radical e estático. Os limites são flexíveis e os artistas continuam, atuando, independente de sua origem.

A arte moderna na Bahia tem início na década de 30, 14 de maio de 1932, com uma exposição de pinturas de José Guimarães, realizada no andar térreo do edifício do Jornal A Tarde. No entanto, com maior importância, pela diversidade de estilos, tem prioridade histórica a primeira exposição coletiva de arte moderna promovida pelo pintor e gravador paulista Manoel Martins, Jorge Amado e Odorico Tavares, agosto de 1944, na Biblioteca Pública da Praça Municipal. À semelhança do que já tinha acontecido com os primeiros modernistas da historia da arte universal, ( Impressionistas, Cubistas, Modigliani, Van Gogh etc.), estas duas primeiras exposições foram rejeitadaspelo público e pelos intelectuais responsáveis pela cultura oficial da época. Pior já tinha sido feito em São Paulo a Anita Malfati por Monteiro Lobato, com a sua infeliz, desditosa e inconseqüente crítica.

O processo de modernização das artes plásticas na Bahia, no entanto, deu-se através da liderança de Mário Cravo Júnior, juntamente com Carlos Bastos e Genaro de Carvalho, inicialmente com a sua exposição coletiva de 1944. Se a este grupo inicial coube o mérito do pioneirismo, à segunda geração de artistas modernos deve-se a ampliação do processo de modernização, inclusive no ensino das artes, uma vez que a grande maioria advém da Escola de Belas Artes da Universidade Federal da Bahia e muitos são professores.

A segunda geração de Artistas Modernos da Bahia começa a estruturar-se a partir de 1960, tendo a maioria dos seus componentes oriundos da Escola de Belas Artes. São, portanto, artistas de formação universitária e foram responsáveis pelos principais acontecimentos artísticos da década. Estes artistas comprometeram-se mais com os eventos coletivos do que com o sucesso pessoal. O programa de ação destes artistas foi bastante diversificado, contando com palestras em escolas, exposições coletivas, debates, itinerantes, realização de painéis coletivos, criação da Associação dos Artistas Modernos da Bahia, reedição da Revista da Bahia, exposições em praças púbicas, feiras de arte, organização e realização de duas bienais nacionais de artes plásticas, direção de uma galeria de arte (Convivium). Compondo este grupo estão os artistas Riolan Coutinho, Sônia Castro, José Maria, Hélio Oliveira, Emanoel Araújo, Juarez Paraíso, Zela Maria, Calazans Neto, Yêdamaria, Carlos Augusto Bandeira, Gisélia Figueiredo, Lygia Milton, Antonieta Gedeon, Sante Scaldaferri, Maria Ângela, Oliveira Mercedes Kruschewsky, Edvaldo Gato, Édison da Luz, Elizabeth Roters, Ângelo Roberto, Luiz Gonzaga, Edsoleda Santos, Udo Knoff, Henrique Oswald, Vera Lima, Hilda Oliveira, Jacyra Oswald, Célia Azevedo, Gley Melo, Leonardo Alencar, Adam Firnekaes, Edízio Coelho, Marisa Gusmão, João José Rescala, Manoel do Bonfim, Humberto Rocha, Renato da Silveira, Gilberto Oliveira, Liana Bloisi, Elizabeth Rothers, Duda, Marlene Cardoso, Vera Lima e Hilda Oliveira. Completando a lista dos artistas da segunda geração destacam-se Calazans Neto, Anna Georgina, Francisco Liberato, Nacif Ganem, Floriano Teixeira, Mário Cravo Neto, Geraldo Rocha, Jorge Costa Pinto, Humberto Vellame, Áureo Abílio, Betty King, Fernando Coelho, Luciano Figueiredo, Carlos Estivallet, Adam Firnekaes, Reinaldo Eckenberger, Willis, João Alves, Cardoso e Silva, Pedroso, Zu Campos, Fernando Coelho e Juraci Dórea.

A Escola de Belas Artes foi em grande parte responsável pela formação de novos artistas modernos em todas as décadas e realizou um extraordinário trabalho na área da gravura. Na Bahia, a gravura tem sido utilizada desde a implantação da arte moderna, na década de 40, através de Mário Cravo Júnior realizando litogravuras e gravuras em metal. Tem sido praticadas todas as técnicas da gravura, destacando-se Lênio Braga, com litogravuras, Yêdamaria, com gravura em metal, José Maria, com xilogravura e Renato da Silveira com serigrafias. Os artistas baianos da década de 60 deram uma feição especial à xilogravura, graças ao emprego do compensado, introduzido por Calazans Neto, e ao uso inadequado da prensa de água-forte.

Mário Cravo Júnior, em 1957, foi o primeiro professor de gravura da EBA da rua 28 de Setembro. Mário Cravo domina todas as técnicas da gravura e o seu vanguardismo teve fortes aliados com a vinda para a Bahia de Henrique Oswald, em 1959, e do alemão Karl Heins Hansen, em 1955, mais precisamente para o ensino da gravura nas oficinas da EBA.
Mas é com Henrique Oswald que se registrou uma maior influência. Ele foi um mestre da xilogravura, da água-forte e da água-tinta. Os seus primeiros discípulos na Escola de Belas Artes da Bahia datam de fins dos anos 50 e começo de 60: José Maria, Hélio Oliveira, Sônia Castro, Leonardo Alencar e Juarez Paraíso, surgindo em seguida Emanuel Araújo, Edison da Luz, Gley Melo e Edízio Coelho. É quando ganha impulso definitivo a prática da gravura na Bahia. Já em 1959 José Maria está expondo suas naturezas mortas na V Bienal de São Paulo. Neste mesmo ano Juarez Paraíso expõe suas primeiras xilogravuras no VII Salão Nacional de Arte Moderna do Rio de Janeiro e Sônia Castro expõe sua primeira água-forte no V Festival Universitário de Arte de Belo Horizonte, sendo premiada.

A terceira geração de artista moderna é da década de 70 e, na EBA, a década teve início com a inauguração da Galeria Cañizares, onde foram realizados os Salões Universitários de 1977, 78,79 e 80. Das centenas de artistas pertencentes à década de 1970, muitos são advindos da Escola de Belas Artes. Esta década conta com artistas que tiveram grande repercussão nas subseqüentes, como Bel Borba, J. Cunha, Justino Marinho, César Romero, Juraci Dórea e Almandrade. Na década de 70 destacou-se na Bahia e no Brasil o grupo ETSEDRON liderado por Matilde Matos e Edison da Luz. Outro grupo de grande talento foi o Grupo Posição, constituído de Sônia Rangel, Juraci Dórea, Chico Diabo, Zélia Maria, Carlos Petrovich e Eckenberger.

A partir de 1980 a Escola de Belas Artes continua presente em todos os acontecimentos e exposições da época, com destaque e premiações
Inovando com muito talento vamos encontrar as interferências de Washington Santana, trabalhando com o lixo, nas grandes cidades como São Paulo e Salvador.

RB - Que importância tiveram e têm as oficinas do MAM-Bahia ?

JP – As Oficinas de Arte do MAMB foram idealizadas por Francisco Liberato, quando diretor do Museu, contando, de imediato, com a minha colaboração e a de Pasqualino Magnavita. Fui designado Coordenador das Oficinas de 1980, ano de sua inauguração, ate 1988. O meu depoimento abrange apenas este período.

As Oficinas de Arte do MAMB constituíram uma realidade altamente positiva no ensino das Artes Plásticas na Bahia. O ensino das técnicas da gravura em Metal, da Xilo, da Litografia e da Serigrafia, da Cerâmica e da Escultura em Madeira, contou com uma extraordinária equipe de professores, todos profissionais em suas áreas, artistas bastantes experientes e criativos. E foi justamente a sensibilidade e o conhecimento desses professores a base essencial do sucesso das Oficinas do MAMB. Na verdade, todos os funcionários das Oficinas eram artistas, o que muito contribui para a culminação dos seus objetivos. Outro aspecto positivo foi o fato de pessoas de tãodiferentes suportes econômicos, sociais e culturais interagirem diariamente as suas experiências artesanais e criativas. As oficinas do MAMB não foram freqüentadas apenas por iniciantes, mas também por artistas profissionais que buscavam desenvolver novas técnicas ou desfrutar do espaço e da maquinaria disponíveis, valorizados pela orientação segura dos seus professores. Artistas altamente criativos como Eckenberger, Terciliano Jr. e Justino Marinho, já deram o exemplo do seu trabalho para os mais jovens e neófitos. Foi também bastante fértil o exemplo da pratica dos próprios artista-professores, como Guache, Paulo Matos, Florival Oliveira, Márcia Magno, Maria Betânia, Yêdamaria, Zu Campos, Ray, Renato Viana e Renato da Silveira, pois, independente de suas aulas realizando o seu trabalho de arte, deram um espontâneo exemplo de criatividade e prática artesanal. A prova inconteste da importância das Oficinas residiu na permanência e evolução dos seus ex-alunos que estão progressivamente se afirmando como artistas profissionais.

“...Na verdade, Salvador sempre teve um mercado de arte frágil, inconsistente. Na década de 60 houve uma verdadeira fabrica de primitivos e ainda se faz muita coisa com selo de arte ingênua para vender aos turistas como ‘lembrança da Bahia’. ”

As oficinas de Arte em Série do Museu de Arte Moderna da Bahia (Oficinas de Técnicas de Expressão Arte em Série) foram inauguradas em marco de 1980, graças ao convênio firmado pela FUNARTE e a Fundação Cultural do Estado da Bahia. Destinavam-se exclusivamente ao ensino e a prática da gravura em todas as suas modalidades. Surgiram como conseqüência de uma nova mentalidade e de um novo conceito de museu em que o mais importante é a assistência à comunidade quanto à formação e produção artísticas, com respeito e fortalecimento das suas especificidades culturais. Por outro lado, ao incrementar o ensino da gravura, com a seriedade e a qualidade exigidas, pretendeu-se devolver à Bahia o prestígio que possuía na década de 60, com o atelier da Escola de Belas Artes da 28 de Setembro.
As Oficinas do MAMB têm servido a centenas de jovens, sem os entraves do academicismo e do ensino formal. Têm estimulado a vários artistas emergentes, sendo todas as suas atividades inteiramente gratuitas.

A partir de 1983, modificou-se a estrutura organizacional dos cursos das oficinas, pela introdução das técnicas de cerâmica e de escultura de madeira, surgindo a nova denominação de Oficinas de Expressão Plástica, com o Departamento de Arte em Série, responsável como anteriormente pelas técnicas de gravura, e o Departamento de Expressão.

Os cursos das Oficinas eram semestrais, sendo os trabalhos dos alunos expostos permanentemente na galeria anexa, com o objetivo de avaliar e divulgar os resultados obtidos.
As Oficinas colaboravam com o programa Museu-Escola-Comunidade que já realizou atividades de apoio didático a um elevado numero de estudantes da rede escolar.