Entrevista
Juarez Paraíso
Pintor, escultor, gravador,
desenhista, ilustrador, Juarez Marialva
Tito Martins Paraíso é membro
da Associação Brasileira de
Críticos de Arte. Professor aposentado
da Universidade Federal da Bahia, já
ministrou e coordenou dezenas de cursos
livres. Ensaísta e crítico
de arte realizou estudos sobre artistas
baianos por vários anos. Nos anos
60 e 70 escreveu artigos para os jornais
A Tarde, Diário de Notícias
e Tribuna da Bahia. Ainda na década
de 60, foi organizador e apresentador de
dois programas de artes plásticas
na TV Itapoan.
Juarez Paraíso participou de exposições
coletivas na Bahia, no Brasil e no exterior.
Organizou a I e a II Bienal Nacional de
Artes Plásticas da Bahia, é
também membro do Conselho de Cultura
do Estado da Bahia. Foi Diretor da Escola
de Belas Artes da UFBa e é um dos
criadores do Salão Nacional de Fotografia
da Bahia.
Já teve seus trabalhos reproduzidos
em vários catálogos, jornais
da Bahia e do Brasil e em várias
revistas, dentre elas: Mundo Hispânico,
Revista da Cultura Brasileira, Veja, Revista
de Fotografia e Grafismo. Domina todas as
técnicas das Artes Plásticas
e Gráficas.
Revista da Bahia
– Considerando sua participação
nos primeiros números da Revista
da Bahia como vê sua trajetória
até hoje?
Juarez Paraíso – O primeiro
número da Revista da Bahia foi publicado
em outubro de 1960, em pequeno formato de
livro (22.5 x 16 cm), tendo na capa um desenho
da artista Ligia Sampaio que fazia parte
da primeira geração de artistas
modernos da Bahia. A composição
gráfica tinha apenas um bloco de
texto e não continha ilustrações.
Participaram deste numero Luiz Henrique
Tavares, Machado Neto, Eugênio Gomes,
José Calazans, Afonso Rui, Fernando
Pedrão, Agostinho da Silva e Walter
da Silveira.
Fui Diretor Artístico da Revista
da Bahia nos números 3, 4, 5, 6 e
7, contando com a inestimável presença
de Descartes Gramacho na supervisão
gráfica.
Sempre com o apoio dos dois Diretores da
Imprensa Oficial, Germano Machado e José
Curvelo, a Revista da Bahia foi para os
artistas e intelectuais da geração
60 o que significou os seis números
da revista Cadernos da Bahia, 1948, 1952,
para os primeiros modernistas. Convidado
por dois diretores da Revista, Sóstrates
Gentil e Alberto Silva, para ser responsável
pela direção artística
e técnica da Revista de pronto aceitei
o desafio de diagramar e coordenar a parte
de artes plásticas. De fato era o
que faltava para todos nós, da segunda
geração de artistas plásticos
modernos, carentes de divulgação
do nosso trabalho e de nosssas idéias.
Experimentei novas dimensões para
a revista e um planejamento gráfico
mais solto e moderno. Os números
da Revista sob a minha responsabilidade
artística foram sobejamente enriquecidos
com reproduções e ilustrações
dos artistas Antônio Rebouças,
Carlos Estivaleti, Jamison Pedra, Hansen
Bahia, Luciano Figuerêdo, Ângelo
Roberto, Edsoleda Santos, Abílio,
Liana Bloisi, Nacif Ganem, Leonardo Alencar,
Gilberto Oliveira, Henrique Oswald, Riolan
Coutinho, Sônia Castro, Elizabete
Rothers, Edízio Coelho, Betty King,
Luiz Gonzaga, Francisco Liberato, Calazans
Neto, Juarez Paraíso, Marioné
Correia, Hélio Oliveira, José
Maria, Sílvio Robatto, Genaro de
Carvalho, Carlos Bastos, Carlos Augusto
Bandeira, Mário Cravo Neto, Adam
Firnekaes, Yêdamaria. Ainda com as
artes plásticas, contribuíram
com textos críticos, Mário
Cravo Júnior, Mário Barata,
Clarival do Prado Valadares, Adam Firnekaes,
Harry Laus, Juarez Paraíso, Renato
da Silveira, Walter Zanini, Wilson Rocha
e Argan. As capas foram compostas com trabalhos
dos artistas Sílvio Robatto, Genaro
de Carvalho, Raimundo Oliveira, Humberto
Rocha e artista popular de cordel (sem identificação).

Capa da 1ª Revista da Bahia –
Desenho de Lígia Sampaio –
1960
Independente
da parte visual A RB possuía um extraordinário
elenco de colaboradores, cujo talento e
importância o tempo só fez
confirmar. São nomes como Florisvaldo
Mattos, João Ubaldo Ribeiro, Paulo
Gil Soares, Alberto Silva, Marco Santarrita,
Alba Liberato, João Carlos Teixeira
Gomes, Fred Souza Castro, Waldir Freitas
de Oliveira, Lena Franca, Myriam Fraga,
Ricardo Cruz, Remy de Souza, Hellington
Rangel e Ildázio Tavares.
A sétima edição da
Revista, 1967, mereceu o seguinte comentário
do Diretor da Imprensa Oficial da Bahia,
jornalista José Curvello: “
...Este número tem um significado
todo especial, porque atinge um objetivo
de há muito perseguido. Deixa as
fronteiras regionais para se lançar
nacionalmente, submetendo-se a verdadeiro
tête a tête com outros centos
intelectuais. Representa a contribuição
da Bahia ao movimento renovador da literatura.
...A Revista da Bahia é o exemplo
do quanto é capaz a força
criadora de jovens intelectuais que não
almejam outra coisa senão a vitória
da própria cultura. A Revista da
Bahia chegou até o número
7 e permaneceu durante muito tempo sem ser
publicada. No número de reabertura
divulgou-se que se devia o seu fechamento
a uma ordem do governo militar, o que não
corresponde à verdade. A Revista
foi suspensa na gestão de Junot Silveira,
Diretor da IOB, quando foi imediatamente
trocada por algumas publicações
de “Plásticos Baianos”,
dedicadas exclusivamente aos artistas plásticos
modernos da primeira geração.
A Revista teve o seu número 9 em
junho de 1988 e em fins de 2004 foi publicado
o número 39.
RB – Como foi sua atuação
nas Bienais Nacionais de Artes Plásticas
da Bahia? Há alguma possibilidade
delas voltarem a ser realizadas?
JP – A Bienal Nacional de Artes Plásticas
da Bahia, também chamada Bienal da
Bahia, foi um dos mais importantes acontecimentos
da História das Artes Plásticas
da Bahia. Juntamente com o Museu de Arte
Moderna, criado em 1959 e dirigido por Lina
Bo Bardi, foi de grande valia no processo
de internacionalização da
Arte Moderna em Salvador. Logo após
a inauguração da I Bienal
da Bahia, Frederico Morais, crítico
de Arte do Diário de Notícias
da Guanabara, declarava que “A I Bienal
Nacional de Artes Plásticas promoverá,
fundamentalmente, a síntese entre
a cultura artística do Norte e Sul
do Brasil entre o folclore rural e urbano,
desregionalizando e desfolclorizando a arte
brasileira sediada na Bahia”. Foram
duas as Bienais realizadas, 1966 e 1968,
lastimavelmente interrompidas pelo próprio
governo de Luiz Viana Filho, em virtude
do clima criado pelo regime militar da época.
Como Secretário Geral das duas Bienais,
contei com uma extraordinária equipe
de jovens artistas e profissionais de várias
categorias, todos entusiasmados com aquela
inusitada e surpreendente oportunidade de
quebrar o isolamento em que se encontravam
os artistas do Norte-Nordeste diante da
desmedida concentração de
realizações nacionais no Centro-Sul
do País. O desafio foi enorme diante
da complexidade e amplitude do evento, do
tempo reduzido. Fizeram parte deste grupo
Riolan Coutinho (primeiro secretário),
Leonardo Alencar, Lúcia Marques,
Mercedes Rosa, Newton Sobral e Humberto
Rocha. Também fizeram parte da equipe
com prestimosa contribuição,
Marisa Gusmão, Mercedes Kruschevsky,
Franscisco Liberato, Yêdamaria e Pasqualino
Magnavita para a parte de restauração
arquitetônica e o planejamento da
montagem dos trabalhos. Clarival do Prado
Valadares foi o nosso assessor principal
na avaliação dos nomes dos
artistas convidados e na constituição
dos júris. A I Bienal da Bahia contou
com o apoio irrestrito de Jorge Amado e
de Genaro de Carvalho, tanto quanto com
o apoio oficial dos professores Luiz Henrique
Tavares e Antônio Loureiro de Souza.
A Bienal da Bahia foi idealizada pelo Secretario
de Educação e Cultura do Governo
Lomanto Júnior, professor Alaor Coutinho,
certamente influenciado pela inteligência
e sensibilidade do seu irmão, o artista
plástico Riolan Coutinho.
As Bienais da Bahia contaram com o apoio
e a presença de artistas consagrados
e da vanguarda dos estados da Bahia, Ceará,
Guanabara, São Paulo, Amazonas, Minas
Gerais, Paraná, Pernambuco, Rio Grande
do Sul, Brasília, Rio de Janeiro,
Goiás, Paraíba, Santa Catarina
e Sergipe.
A I BNAP, inaugurada em 28 de dezembro de
1966, no Convento do Carmo, apresentou 23
salas especiais, contou com a inscrição
de 2.653 obras de 683 artistas, sendo aprovados
755 obras de 342 concorrentes, uma média
de cortes correspondente a 71%.
A Bienal ofereceu uma excelente oportunidade
de estudo aos especialistas de Artes Plásticas.
Revelou novos valores, consagrando artistas
emergentes. Transformou Salvador na capital
artística do País e foi o
único acontecimento artístico-cultural
capaz de quebrar a hegemonia do eixo Rio
– São Paulo que tanto tem desequilibrado
o desenvolvimento dos demais estados do
Brasil. O Salão Nacional de Belas
Artes, atualmente de Artes Plásticas,
nunca foi nacional, confinando-se aos interesses
dos estados do Sul.
Visitadas por milhares de pessoas, as Bienais
da Bahia foram comentadas e analisadas nacionalmente
por dezenas de críticos de arte e
centenas de artistas nos mais importantes
jornais do País. No entanto, um dos
estudos mais completos sobre a I Bienal
de Salvador foi de autoria de Maria Eugênia
Franco publicado no Estado de São
Paulo em edições da época.
Na sua maioria, os artistas da década
de 1960, eram oriundos da Escola de Belas
Artes, professores e alunos que lutavam
pela própria renovação
da estrutura técnica e conceitual
do ensino das artes plásticas. São
artistas que optaram por um trabalho mais
coletivo e didático e as suas realizações
mais marcantes convergiam para uma maior
expansão da Arte Moderna e pelo crescimento
do número de artistas, o que bem
comprovam a Revista da Bahia, a Galeria
Convivium, a Associação dos
Artistas Plásticos Modernos da Bahia,
as Feiras de Arte Moderna em praça
pública, os cursos, palestras, debates,
simpósios e encontros da época.
Na época das Bienais da Bahia, existia
em Salvador uma espécie de feudo
cultural assentado nos Diários Associados
e não foi por menos que a Presidência
de Honra da I BNAP foi concedida a Assis
Chateaubriand. E embora a idéia da
Bienal tenha partido de uma área
do Governo, de uma decisão política
governamental, a sua organização
e execução não dependeram
de nenhum sistema de poder e dominação
existente em Salvador, daí ser fácil
deduzir o porquê das inúmeras
dificuldades enfrentadas para a sua consecução.
Também é necessário
entender a realização e o
fechamento da Bienal em função
do contexto cultural e político dos
anos 60. As conquistas culturais da época
favoreceram o seu afloramento, tanto quanto
a repressão da censura do governo
militar o seu sepultamento. Os anos 60 representaram
uma espécie de anos dourados, embora
também de pesadelo, pelo menos para
o terceiro mundo. Em nível regional,
no entanto, os artistas baianos estavam
em ebulição, conhecendo e
praticando a internacionalização
da Arte Moderna. A Escola de Belas Artes
era em grande parte responsável pela
formação de novos artistas
modernos, realizando um notável trabalho
na área de gravura. Um dos fatos
mais relevantes na seleção
dos artistas baianos para a I BNAP foi a
aprovação de todos os gravadores
inscritos, despertando a admiração
de Harry Laus e Mário Schemberg,
principalmente pela unidade das Gravuras
apresentadas.
A BNAP promoveu um programa de TV e um excelente
curso para Monitores.
A Bienal contou com o apoio dos principais
críticos do Brasil como Harry Laus,
Theon Spanudis, Jaime Maurício, Mário
Schemberg, Frederico de Moraes, Mário
Pedrosa, Maria Eugênia Fraco, Wilson
Rocha, Clarival do Prado Valadares, Walter
Zanini.
Ficou assentado que as Bienais seriam realizadas
em monumentos arquitetônicos do patrimônio
artístico e histórico de Salvador.
Com isto seriam feitas as restaurações
tão necessárias ao tempo em
que seria oferecido um expressivo contraste
entre o novo e o antigo. Com o extraordinário
trabalho de restauração e
adaptação arquitetônica
de Pasqualino Magnavita, a I BNAP foi realizada
no Convento do Carmo, a II BNAP no Convento
da Lapa e a III BNAP já estava pensada
para ser realizada no Convento do Desterro.
As reações de São Paulo
foram imediatas, com a criação
da Pré-Bienal.
Aprendemos com as críticas, as opiniões,
os longos artigos realizados sobre a I BNAP.
Assimilamos as recomendações
para se nacionalizar mais ainda a Bienal,
eliminando-se os prêmios estaduais.
Eliminamos também a Seção
de Artes Decorativas, e diminuímos
o número de Salas Especiais, incorporando
outras de grande importância como
a de Arquitetura-Comunidade, Habitação,
Fotografia e de Arte Popular. A Sala Especial
de Artesanato, da Secretaria de Trabalho
e Bem Estar Social, contendo toda a produção
artesanal baiana, notadamente a cerâmica
de Maragojipinho e os produtos de couro
de Feira de Santana e do Sertão baiano.
As Salas Especiais, por modificação
do planejamento, não concorriam aos
prêmios.
As Salas Especiais da II BNAP, confirmadas
e montadas foram as de Antônio Bandeira
, Ana Letícia, Roberto Magalhães,
Fernando Jackson (Paraíba), João
Câmara, Gilvan Samico, Carlos Scliar,
Nelson Leirner. Houve também uma
Sala Especial de Fotografia com artistas
de vários estados do Brasil . A Bienal
da Bahia sofreu outro revés com o
pronunciamento do escultor Mário
Cravo Júnior, em carta aberta dirigida
ao governador Luiz Viana Filho (publicada
no diário de Notícias de 7.10.68
e em outros jornais) manifestando-se radicalmente
contra a Bienal Nacional de Artes Plásticas
da Bahia e apresentando sua demissão
incondicional do cargo de Conselheiro do
Conselho Estadual de Cultura, por não
concordar com a realização
da Bienal.
Neste ano da II BNAP já se faziam
notar as mudanças na produção
dos artistas plásticos da Bahia,
na modernização da linguagem.
Pela primeira vez sentimos a presença
de “uma certa consciência de
classe” motivada pela recém-criada
Associação dos Artistas Modernos
da Bahia. Os artistas jovens trocavam idéias
e se preparavam para a Bienal, sendo as
referências maiores Lênio Braga,
pelo prêmio da I BNAP com trabalhos
que chamaram a atenção como
Monalisa e Moneyleague e O Colecionador
de Primitivos. Pode-se tocar de Reinaldo
Eckenberger, primeiro artista pop de Salvador,
além de Luciano Figueirêdo,
Carlos Estivalett, Edsoleda Santos, Marlene
Cardoso e Liana Bloise com suas experiências
de Arte Ambiental e Objetos. E de Jamison
Pedra e Renato da Silveira pela sua pintura
intitulada O Astronauta, Nobreza Semi-Morta
e Nobreza Morta-Viva. Neste ano de II BNAP
foi realizada a I Feira Baiana de Arte Moderna,
na Piedade, com a participação
de quarenta artistas.
Ao todo, portanto, a II BNAP contou com
a presença de 270 artistas com 1.005
obras, sem contar com os trabalhos da Sala
de Artesanato e Arte Popular, tendo concorrido
aos prêmios 141 artistas com 993 obras.
Para muitos a II Bienal da Bahia foi considerada
superior à primeira em qualidade,
pela seleção mais rigorosa,
tendo sido o corte muito grande: 80% da
Bahia, 60% de São Paulo, 45% de Pernambuco,
40% da Guanabara etc. O clima da II BNAP
era de forte tensão e expectativa.
Estava em pleno vigor o AI–5 e às
vésperas da inauguração
da Bienal, o caminhão carregado de
obras rejeitadas pelo Júri de Seleção
por serem primárias e destituídas
de expressão estética, foi
apreendido pela Polícia Federal,
quando retornava pela Rua do Bispo em direção
às dependências da Secretaria
Geral, na Academia de Letras da Bahia, no
Terreiro. Embora o seu destino fosse o recolhimento
pela não aceitação
do júri, para a Polícia Federal
as obras continuavam sendo ofensivas. A
partir daí, sucederam-se vários
acontecimentos, muitas interpretações
confusas e equívocas: 1º) Às
vésperas da inauguração
da I BNAP fomos entrevistados pelo jornalista
Anísio Félix do Jornal da
Bahia, quando declaramos, entre outras cousas,
ser a censura inconcebível e monstruosa;
2º) Antes da inauguração
da Bienal fomos procurados por alto funcionário
da Secretaria de Educação
dando ordens para que certas obras, por
ele consideradas “subversivas”,
fossem retiradas da Bienal, o que obviamente
não fizemos porque aceitar a ordem
seria negar a nossa própria vida
como professor e artista, e um imperdoável
desrespeito aos colegas e ao Júri
de Seleção; 3º) A II
Bienal Nacional de Artes Plásticas
não foi fechada pela Polícia
Federal, como se espalhou pelo Brasil afora,
e sim pelo próprio Governo receoso
de maiores represálias; 4º)
Foram apreendidas, como “subversivas”,
por incrível que pareça, diante
do estardalhaço que se fez, apenas
10 obras de um conjunto de 1.005, sendo
com isto toda a Bienal tachada de “comunista”,
buscando-se justificar as nossas prisões.
Os artistas excluídos foram Lênio
Braga (três trabalhos), Antônio
Manuel (um trabalho), Manuel Henrique (três
trabalhos) e um desenho de Farnese Andrade,
representante do Brasil na Bienal de Veneza;
5º) Durante quase um mês da Bienal
fechada nuca houve “problemas técnicos”
como alegavam funcionários do Governo
e sim precaução e medo da
repressão. A reabertura da Bienal,
já sob a responsabilidade do Professor
Remy de Souza, só se deu por pressões
da sociedade, artistas e intelectuais; 6º)
A Bienal Nacional de Artes Plásticas
foi “suspensa” por decreto do
governador Luiz Vianna Filho, o que significou,
na prática, a sua lamentável
extinção.
Logo em seguida ao fechamento da II BNAP
pelo próprio Governador do Estado,
fomos presos eu e o professor Luiz Henrique
Dias Tavares, e recolhidos no 19º BC,
no Cabula, onde permanecemos cerca de 30
dias. E o resto todo mundo já sabe,
a inércia e o marasmo cultural em
que nos encontramos, desde a presença
em Salvador de Lina Bo Bardi e das Bienais
da Bahia, sem nenhum grande movimento regional
ou nacional capaz de nos livrar do imobilismo
e da mesmice cultural na área das
Artes Plásticas
É preciso considerar que as Bienais
da Bahia surgiram dentro de um contexto
muito especial que dificilmente se repetirá.
Ela foi feita com muita coragem política
e foi realizada pelos próprios artistas,
pensando alto, em benefício da classe
e não de grupos. É claro que
se houvesse interesses políticos
ela poderia ser reativada. Pessoalmente,
acredito ser mais necessário a criação
de um salão regional, um salão
baiano para os baianos onde poderiam anualmente
expor as suas obras e trocar experiências
.
RB – O senhor foi praticamente
um dos primeiros artistas a trabalhar com
a arte mural na Bahia. Quais suas principais
realizações e como essa arte
vem evoluindo na Bahia ?
JP – Mural tem sido definido como
obra de arte plástica realizada no
muro, muro como suporte e parte integrante
da Arquitetura. O Mural, por excelência
seria, portanto, o afresco, que depende
do muro como parte constituinte, uma vez
que os pigmentos são inseridos na
própria argamassa que o reveste.
No entanto, muitas são as técnicas
que também poderiam ter intimidade
com o muro, como elementos gravados, incrustados
ou afixados. A busca de integração
do artista depende da sua compreensão
quanto ao valor estético da superfície
utilizada na arquitetura como um dos seus
componentes de espressão estética.
E como a Arquitetura Moderna e Pós-moderna
não mais necessitam do muro como
elemento de estrutura, de sustentação,
por que utilizam esqueleto de concreto ou
metal, o muro pode ser entendido como qualquer
superfície integrante da arquitetura,
daí a multiplicidade de recursos
existentes atualmente, para a concepção
do Mural. Mural pressupõe densidade
dimensional, técnica e estética.
Pressupõe integração
com a arquitetura, do ponto de vista estilístico
e temático, como regra explícita
da história do muralismo universal,
como exemplifica a genialidade de Miguel
Ângelo, com a Capela Sixtina, e a
de Le Corbusier, com a sua pintura e os
seus baixos relevos de concreto aplicados
à sua própria arquitetura.
Mas também são brilhantes
as exceções, como os Murais
de Rivera, Siqueiros e Orozco, quando os
murais canibalizam a arquitetura, utilizando-a
como um mero suporte. Quando se fala em
Mural entende-se compromisso social, político,
cultural, técnico. O mural, como
uma das formas da arte de escala físico-pública,
exige do artista compromisso com o perceptor,
como cidadão. É uma obra feita
para o grande público. Será
visto por milhares de pessoas e por muito
tempo. Será, portanto, uma referência,
um instrumento de educação
da sensibilidade e do desenvolvimento cultural
do indivíduo. Porisso mesmo é
que o artista deverá expressar-se
com maturidade estética, pesquisar
e expressar devidamente a sua técnica,
a sua temática seja o trabalho de
concepção abstrata ou engajado.
Tecnicamente, o Mural deve ter a mesma durabilidade
que a Arquitetura, daí a necessidade
do artista dominar devidamente as técnicas
a serem adotadas, escolhendo as mais indicadas
e convenientes para o espaço interno
ou externo.
Antes de tudo, o Mural não é
a ampliação do trabalho de
cavalete, de câmara. Como o compromisso
é orgânico, isto é,
material e estético, o Mural exige
uma tecnologia própria de composição
espacial e cromática. Intuitiva ou
conscientemente, o artista deverá
aplicar recursos próprios para a
concepção e realização
do espaço plástico Mural,
para a criação de suas sínteses
estruturais e multiplicidade de tensões
visuais, onde possam conviver eusinopsia
(unidade) e complexibilidade (variedade).
Em síntese, enquanto no trabalho
de pequenas dimensões o campo de
percepção se restringe, com
o Mural se amplia, multiplicando-se as relações
formais e cromáticas, moduladas inclusive
pela própria ação do
perceptor, que pode optar por centenas de
pontos de vista para a visualização
do trabalho.
A obra de arte, pela sua excelência,
é um dos mais eficientes e eficazes
instrumentos de educação da
sensibilidade e do aprimoramento da consciência
humana. A realização de um
Mural, de uma escultura ou qualquer outro
gênero de alcance público e
social exige reflexão e seriedade
do artista, tanto quanto do patrocinador,
principalmente quando emana do poder público,
governamental.
Em Salvador, existem importantes marcos
da história do muralismo, em geral,
da arte de escala físico-pública,
destacando-se os importantes momentos de
concentração das obras de
vários artistas. A primeira manifestação,
no plano individual aconteceu em 1949, com
Carlos Bastos, no Anjo Azul, antigo centro
de boêmia dos artistas e intelectuais
baianos e no plano coletivo, com uma significativa
reunião de artistas, no início
da década de 1950, no Centro Educacional
Carneiro Ribeiro, Caixa D’Água,
graças à maturidade política
do governador Otávio Mangabeira,
ao gênio de Anísio Teixeira
e à sensibilidade do arquiteto Diógenes
Rebouças. Embora atualmente em precárias
condições materiais, lá
se encontram murais de Mário Cravo
Júnior, Carybé, Maria Célia,
Genner Augusto e Mangano com técnicas
de têmpera e afresco, reunindo soluções
composicionais que bem podem elucidar sobre
as principais preocupações
dos primeiros artistas modernos da Bahia,
convergidas para a arte do mural. A Segunda
grande concentração de obras
de arte monumental encontra-se no Centro
Administrativo, promovido pelo Governador
Antônio Carlos Magalhães, entre
1971 e 1974, e que contou com a curadoria
de Jorge Amado.
Antes de tudo falta a lei de obrigatoriedade
da presença da arte monumental nos
espaços e edifícios públicos
e principalmente falta licitação
pública na área das artes
plásticas.
Na verdade, falta qualquer incentivo para
a realização de obras de arte
de escala físico-publica, murais,
calçadões, esculturas, sinalizações,
etc. isto é, trabalhos que pelas
suas dimensões e compromissos técnicos,
estéticos e temáticos, possam
ser integrados nos espaços públicos,
internos ou externos, governamentais ou
privados. Havendo maior preparo cultural
dos governantes, percepção
estética, tanto quanto pressão
dos próprios artistas, organizados
em associações ou, melhor
ainda, em sindicatos, a presença
da obra de arte na cidade poderá
ser constante.
Já realizei uma serie de murais,
através de concursos públicos
ou a convite de particulares. Sempre procurei
executar os murais segundo os conceitos
e técnicas composicionais que defendo
para este gênero de artes plásticas.
O espaço deste depoimento não
permite uma análise sobre eles, mas
destaco os que foram destruídos pela
intolerância dos Evangélicos,
o do Cine Bahia pela Igreja Universal, os
murais do Cine Art I e II (Politeama) pela
Igreja Renascer em Cristo. Foram também
destruídos o trabalho de Arte Ambiental
do Cine Tupy pela CIC, empresa de cinema,
e os calçadões da Praça
da Sé pela própria Prefeitura
de Salvador. Então vejam só!
Não existe qualquer tipo de incentivo
para a criação de murais,
mas, em descompensação, nem
qualquer proteção para os
poucos existentes. Carlos Bastos, Mário
Cravo e outros artistas já sofreram
do mesmo problema.
RB – Qual a contribuição
da Escola de Belas Artes da UFBA para o
desenvolvimento das artes plásticas
da Bahia?
JP – Com exceção do
reitorado de Edgar Santos, Belas Artes sempre
lutou pela sua sobrevivência, enfrentando
uma injusta política de distribuição
de verbas onde tem predominado o preconceito
de escolas consideradas prioritárias,
funcionando como instrumento de pressão,
o que também desconsidera o seu valor
histórico, pois é a segunda
unidade de ensino da Universidade Federal
da Bahia, (a sua fundação
deu-se em 17 de dezembro de 1877, por Miguel
Navarro Y Cañizares). Ainda mais,
ela é a segunda escola Superior do
ensino das “Belas Artes” do
Brasil. Porém, o mais importante
é que a participação
da Escola de Belas Artes na produção
artístico-cultural da comunidade
baiana e nordestina sempre foi constante
e significativa. Do seu período “Acadêmico”,
que vai da sua fundação até
fins da década de cinqüenta,
destacam-se nomes que ganharam notoriedade
nacional, como Lopes Rodrigues, Presciliano
Silva, Pascoal Del Chirico, Ismael de Barros,
Mendonça Filho, Alberto Valença
e Emídio Magalhães. A partir
da presença de Maria Célia
Calmon, revolucionária precursora
do ensino moderno e interativo, e de vários
e históricos acontecimentos, como
o curso de extensão de gravura de
Mário Cravo Jr., em 1957, e a exposição
coletiva dos novos professores e alunos
no Belvedere da Sé, logo após
a saída de Arquitetura da Escola
em 1959, tem início a reação
ao ensino acadêmico. Na década
de 60, a Escola passa a ter uma indiscutível
hegemonia no processo da “Internacionalização
da Arte Moderna” na Bahia, pela ativa
participação do seu quadro
docente renovado, constituído por
artistas da segunda geração
de modernistas da Bahia. A partir desta
época, embora com algumas oposições
renitentes, a Escola deixou de navegar contra
as inovações externas e passou
a participar dos processos de atualização
da criação artística,
pois os artistas mais criativos da arte
moderna local constituíam o seu próprio
quadro docente. Desde esta época,
motivados pelos acontecimentos nacionais
e internacionais mais significativos, através
de inúmeros encontros, debates, simpósios,
etc., procurou-se uma nova metodologia,
sempre com a participação
dos professores mais esclarecidos. Ao contrário
do ensino acadêmico, pautado na estética
do Neoclássico, o ensino libertador
do espírito criativo moderno é
bastante complexo, principalmente porque
não pode ser ancorado em nenhum exemplo
de estilos ou poéticas já
consagrados. E foi justamente isto que os
mais esclarecidos entenderam e perseguiram,
da década de 60 até fins da
década de 90, quando a escola declina,
perigosamente, para o desentendimento e
a desorganização interna,
ainda mais quando acentuada pela política
de desestabilização do Presidente
Fernando Henrique Cardoso aplicada à
Universidade Brasileira, causando a debandada
dos mestres e a substituição
de professores experientes por alunos recém
formados. O sucesso da Escola, em todas
estas décadas se reflete, de imediato,
na presença dos seus professores
e alunos nos principais acontecimentos e
atividades artísticas da comunidade.
É quando encontramos os artistas
vinculados à Escola nos Salões
do Museu de Arte Moderna, nas Feiras de
Arte, Nos Salões Regionais de Artes
Plásticas da Fundação
Cultural do Estado da Bahia, em exposições
nacionais, nos muros da Cidade, nas mais
importantes Galerias de Arte e, quase sempre,
arrecadando importantes premiações
e o reconhecimento público. A ação
da Escola ampliou-se significativamente
no processo de integração
com a comunidade através atividades
de extensão, como cursos livres,
exposições itinerantes, feiras
de arte, palestras, conferências,
debates etc., e na colaboração
constante com outras instituições
culturais, como o Instituto Cultural Brasil-Alemanha
– ICBA, o Departamento Cultural da
UFBA, o Museu de Arte Moderna da Bahia,
com a participação dos seus
professores na criação e implantação
das Oficinas de Expressão Plástica,
concebidas por Francisco Liberato e Pasqualino
Magnavita.Também é fato relevante
a ação dos professores de
Desenho e Plástica, formados pela
EBA, a partir de 3 de abril de 1959, junto
aos colégios particulares e públicos.
Na década de 60 destacam-se a realização
das duas Bienais Nacionais, 1966, 1968,
a criação da Galeria Convivium,
destinada a exposições da
vanguarda local e nacional, a publicação
de vários números da Revista
da Bahia, a criação da Associação
dos Artistas Modernos da Bahia, sempre com
a vinculação de professores
e artistas da EBA. Foi igualmente importante
o surgimento de um movimento de criação
na área da Gravura, chegando a ser
cognominado de “Escola Baiana de Gravura”,
pelas características técnicas
oriundas do emprego do compensado e da prensa
de água forte como meio de impressão.
“...Na década de
sessenta, a Escola passa a ter uma indiscutível
hegemonia no processo da “Internacionalização
da Arte Moderna” na Bahia, pela ativa
participação do seu quadro
docente renovado, constituído por
artistas da segunda geração
de modernistas da Bahia...”
Na década
de 70, deixando o casarão da rua
28 de Setembro e após o interregno
de 1969 nas dependências do Convento
de Santa Tereza, no Museu de Arte Sacra,
a Escola foi transferida para as suas atuais
dependências, na rua Araújo
Pinho, Canela. É quando tem início
a utilização da Galeria Canizares
expondo artistas locais, nacionais e internacionais,
e revelando inúmeros talentos oriundos
da própria Escola, principalmente
com os Salões Universitários,
sob a coordenação de Ivo Vellame.
No reitorado do professor Macêdo Costa,
com a minha coordenação, foi
realizado um painel coletivo para a Biblioteca
Central da UFBA. com a contribuição
individual de todos os artistas baianos
que tivessem tido vinculação
com a EBA, sendo o resultado prodigioso,
o que bem comprova a importância histórica
e cultural da Escola de Belas Artes. Na
década de 1980, na gestão
de Márcia Magno, foram criados os
cursos de Desenho Industrial, o superior
de Decoração, o Mestrado e
a Estação de Informática
A presença da Escola tem sido também
importante na estrutura visual da cidade
por ocasião dos grandes acontecimentos
populares. Com as decorações
de carnaval, proveniente de concorrência
pública, a partir de 1965, os professores,
alunos e funcionários da EBA, sempre
estiveram presentes, quando a Escola era
transformado em um grande canteiro de obras.
Artistas professores da EBA também
têm sido responsáveis por inúmeras
esculturas e murais existentes na cidade
do Salvador. Igualmente importante tem sido
a Escola na área da restauração
de obras de arte e monumentos públicos,
pela ação dos seus inúmeros
restauradores, como exemplos, João
Rescala, Ana Maria Villar e José
Dirson Argôlo.
No plano intelectual a produção
da Escola tem sido relevante, destacando-se
as diversas pesquisas e teses já
realizadas e artigos publicado nos jornais
e revistas especializadas, principalmente
pelos professores de História da
Arte, notadamente Maria Helena Flexor.
Participei das mudanças ideológicas
e curriculares da EBA, desde a década
de 1960 até 1999. Introduzi disciplinas
como Percepção Visual e Composição
Plástica, fui autor da proposta da
eliminação do ensino baseado
na cópia de modelos de gêsso,
participei de todos os seminários
de pró-reformulação
do ensino das artes, participei da criação
dos novos cursos e de todas as atividades
acadêmicas envolvendo a escola. Fui
representante da Escola em todos os conselhos
superiores da UFBA. Fui chefe de Departamento
, Coordenador de Curso e Diretor da Escola.
Aposentei-me após 42 anos de dedicação
á Universidade. Concederam-me o título
de Professor Emérito, o que muito
me orgulha, tanto quanto tenho consciência
do dever cumprido.
RB - Faça um comentário
sobre o movimento de galerias de artes na
Bahia dos anos 50 para cá.
JP – No inicio do movi-mento de arte
moderna de Salvador, raros eram os espaços
para exposições e inicialmente
os artistas contavam apenas com as instituições
públicas que prestaram um oportuno
serviço, cedendo as suas salas e
salões. Independente da exposição
de José Guimarães de 1932,
no jornal A Tarde, a primeira exposição
coletiva de arte moderna em Salvador foi
promovida em 1944 por Jorge Amado, Manuel
Martins e Odorico Tavares, justamente na
Biblioteca do Estado, de excelente localização
na Praça Municipal. As exposições
eram bem freqüentadas e para ver um
Interior do mestre Presciliano Silva tive
que entrar numa longa fila de espera. Nesta
Galeria da Biblioteca, Carlos Bastos realizou
individual em 1947 e Genaro de Carvalho
em 1949. A minha primeira individual foi
também realizada neste espaço,
em 1960, com desenhos abstratos, a bico
de pena.
No Instituto Geográfico e Histórico
da Bahia foi realizada em 1950 outra importante
exposição de arte moderna
Novos Artistas Baianos, com Mário
Cravo Júnior, Lígia Sampaio,
Genner Augusto e Rubem Valentim.
Segundo o testemunho de Thales de Azevedo,
a ACBEU demonstra o seu interesse pelas
Artes Plásticas desde a sua própria
fundação, 1º de agosto
de 1941, quando realizou uma exposição
de xilogravuras com artistas brasileiros
e norte-americanos, no Instituto Histórico
e Geográfico da Bahia.
A Escola de Belas Artes da Rua 28 de Setembro
possuía um grande salão que,
no início da década de 60
e no processo de transformação
de sua estrutura acadêmica, foi adaptado
para ser uma galeria, principalmente para
exposições de arte moderna,
aproximando os alunos das novas linguagens,
das novas poéticas. Com a mudança
da Escola em 1970 para a Rua Araújo
Pinho, Canela, foi a ela incorporado um
prédio que se transformou na Galeria
Cañizares. A Galeria Cañizares
tem sido peça fundamental na atualização
da Escola, pela importância de suas
atividades e exposições, como
os Salões Universitários e
os Salões Nacionais de Fotografia.
“Participei das mudanças
ideológicas e curriculares da EBA,
desde a década de 1960 até
1999. Introduzi disciplinas como Percepção
Visual e Composição Plástica,
fui autor da proposta da eliminação
do ensino baseado na copia de modelos de
gesso, participei de todos os seminários
de pró-reformulação
do ensino das artes...”
No trabalho
de formação e atualização
da estrutura artística de Salvador
deve ser citado o Instituto Cultural Brasil-Alemanha.
O ICBA contou com o inestimável trabalho
do artista plástico e musico Adam
Firnekaes, orientando a realização
de importantes exposições
e lecionando importantes cursos como o dePintura
Experimental para Leigos. O ICBA viria a
ser com a direção de Roland
Schafnner o mais importante centro de resistência
cultural ao marasmo e à esterilidade
imposta pela censura do AI–5. Foi
absolutamente importante para os baianos
na década de 70.
Ainda existem muitos a citar, todos relevantes
nas suas realizações, como
os espaços utilizados para exposições
da USIS, Belvedere da Sé, Aliança
Francesa, Gabinete Português de Leitura,
Teatro Vila Velha, etc.
O aparecimento de novos artistas, autodidatas
ou relacionados com a Escola de Belas Artes
e a modernização da cidade
do Salvador propiciada pelo desenvolvimento
econômico da Bahia, criação
da Petrobrás, Pólo Petroquímico,
motivaram o aparecimento de Galerias Comerciais.
E nesta categoria a Oxumaré foi a
primeira.
A Galeria Oxumaré foi dirigida por
Carlos Eduardo da Rocha. Deu guarida a vários
artistas, como Rubem Valentim e Carl Heins
Hansen. E realizou importantes exposições
de artistas modernos como Genaro de Carvalho,
Raimundo Oliveira, Carlos Bastos. Funcionou
durante toda a década de 50 e inicio
de 1960.
Muitas eram as Galerias existentes na época
das Bienais da Bahia, gerando uma heterogênea
proliferação de artistas,
destacando-se a Galeria da USIS, Galeria
dos Novos, Sodré Galeria, Galeria
Bahiarte, Le Dome Galeria de Arte. Mas,
contribuindo e acelerando a atualização
do meio artístico no setor da Arte
Moderna, sobressaiam-se três galerias:
a Galeria Querino, que contava com o apoio
dos Diários Associados, a Galeria
Convivium e a Galeria Bazarte. A Querino
era de propriedade de Renot, colunista social
do Diário de Noticias. Lançou
muitos artistas primitivos, realizou muitas
exposições de artistas consagrados,
como Aldemir Martins, e muitos artistas
japoneses de São Paulo, abstratos
líricos. Era a galeria de maior sucesso
comercial de Salvador. Todas organizaram
importantes mostras e atividades artísticas,
sendo que a Galeria Convivium, de propriedade
de Albertoni e Liana Bloisi e por mim dirigida
não fazia concessões, não
participando da promoção em
larga escala de artistas primitivos, característica
da época, ou da exploração
do folclore baiano como recurso para vender
quadros. A Galeria Convivium faliu por dedicar-se
principalmente à arte de vanguarda
e por promover acontecimentos não
lucrativos, ao contrário, onerosos
pela sua complexidade, como a exposição
“Tempo Brasileiro em Arte” com
artistas que participaram do Grupo Opinião
e Proposta 65, seguindo a linha do realismo
crítico. Foi a primeira exposição
realizada em Salvador situando vários
caminhos estilísticos da Nova Figuração,
com trabalhos de Gerchmann, Francisco Liberato,
Antônio Dias, Adriano D’Aquino,
Carlos Vergara, Dilenny Campos, Maria do
Carmo Seco, Pedro Escosteguy, Renato Landim,
Vera Sancigolo, Roberto Magalhães,
Suzana Lôbo e outros. Mas seria injusto
não citar a Galeria Bazarte e o Instituto
Cultural Brasil - Alemanha neste trabalho
de formação e atualização
da estrutura artística de Salvador
nesta época. A Bazarte com a generosidade
do Senhor Castro ajudando a dezenas de jovens
artistas como hóspedes de sua Galeria,
com a realização de exposições,
debates e palestras. A Galeria Bazarte lançou
vários álbuns de gravuras,
com Adam Firnekaes, Ângelo Hodick,
Eckenberger, Édison da Luz, Edvaldo
Souza, Eduardo Reis, Estivalet, Gilberto
Oliveira, Gley, Jamison Pedra, Kabá,
Sônia Castro, Terciliano Júnior.
Ainda na década de 1960 destaca-se
a Galeria 13 de Deraldo Lima, a primeira
do Pelourinho, 1963. Foi inaugurada com
22 artistas, apresentando logo depois fotografias
de Lázaro Torres e o primeiro happening
de Salvador com Francisco Liberato, Juarez
Paraíso, Áureo Abílio,
Eckenberg, Maria Ângela Di Carlo,
Pedro Ivo e outros artistas.
A partir da década de 70 surgem inúmeras
Galerias, embora poucas resistindo às
pressões econômicas de um mercado
de arte fragilizado pela ausência
de colecionadores, da falta de cultura artística
das classes mais abastadas e do fraco poder
aquisitivo da classe média. Na verdade,
Salvador sempre teve um mercado de arte
frágil, inconsistente. Na década
de 60 houve uma verdadeira fábrica
de primitivos e ainda se faz muita coisa
com selo de arte ingênua para vender
aos turistas como “lembrança
da Bahia”. Também são
vendáveis os artistas oficiais, aqueles
já consagrados pela mídia,
opinião pública e que sempre
têm o beneplácito das encomendas
do Estado. E, em termos de valorização
de mercado das obras de arte sempre houve
contrafações : obras de valor
artístico duvidoso, usadas com objeto
de decoração ou de ostentação,
sempre superfaturadas em detrimento da arte
de pesquisa e de vanguarda. Mas muitas galerias
se destacaram e se destacam, pelo nível
de suas promoções e profissionalismo,
como a Galeria O Cavalete de Jacy Brito,
Prova do Artista de Denílson, MCR
Galeria de Arte, Roberto Alban Galeria de
Arte e Paulo Darzé Galeria de Arte.
Matilde Matos, com a sua vasta cultura estética
e experiência como crítica
de arte, contando com a prestimosa colaboração
da filha Clotilde, tem imprimido um cunho
especial e valioso nas suas realizações
á frente da EBEC Galeria de Arte.
Também é importante ressaltar
o trabalho de Dílson Midley e de
Stela Carozzo à frente da Galeria
da Associação Cultural Brasil-Estados
Unidos. A Galeria ACBEU, criada em 1975,
é uma das mais importantes de Salvador,
pela dinâmica de sua atuação
junto aos artistas emergentes, aos artistas
do interior, pela qualidade de suas exposições
com artistas regionais, nacionais e estrangeiros.
Atualmente é dirigida pela gravadora
Eneida Sanches.
Dentre outras lacunas, certamente uma das
maiores seria omitir a importância
do Conjunto Cultural da Caixa, dos Correios
e do Banco do Brasil, no desenvolvimento
da cultura artística da Bahia.
RB - Em quantas gerações
as artes plásticas na Bahia podem
ser enquadradas e quais os seus principais
grupos e representantes?
JP – Referente à Arte Moderna,
quatro ou cinco gerações.
A primeira geração, a dos
primeiros artistas modernos, entre as décadas
de 40 e 60. A segunda, artistas que surgiram
com destaque na década de 60 e a
terceira artistas da década de 70.
A quarta e a quinta, ainda sem definição
ultimada, a partir dos anos. 80. Nada radical
e estático. Os limites são
flexíveis e os artistas continuam,
atuando, independente de sua origem.
A arte moderna na Bahia tem início
na década de 30, 14 de maio de 1932,
com uma exposição de pinturas
de José Guimarães, realizada
no andar térreo do edifício
do Jornal A Tarde. No entanto, com maior
importância, pela diversidade de estilos,
tem prioridade histórica a primeira
exposição coletiva de arte
moderna promovida pelo pintor e gravador
paulista Manoel Martins, Jorge Amado e Odorico
Tavares, agosto de 1944, na Biblioteca Pública
da Praça Municipal. À semelhança
do que já tinha acontecido com os
primeiros modernistas da historia da arte
universal, ( Impressionistas, Cubistas,
Modigliani, Van Gogh etc.), estas duas primeiras
exposições foram rejeitadaspelo
público e pelos intelectuais responsáveis
pela cultura oficial da época. Pior
já tinha sido feito em São
Paulo a Anita Malfati por Monteiro Lobato,
com a sua infeliz, desditosa e inconseqüente
crítica.
O processo de modernização
das artes plásticas na Bahia, no
entanto, deu-se através da liderança
de Mário Cravo Júnior, juntamente
com Carlos Bastos e Genaro de Carvalho,
inicialmente com a sua exposição
coletiva de 1944. Se a este grupo inicial
coube o mérito do pioneirismo, à
segunda geração de artistas
modernos deve-se a ampliação
do processo de modernização,
inclusive no ensino das artes, uma vez que
a grande maioria advém da Escola
de Belas Artes da Universidade Federal da
Bahia e muitos são professores.
A segunda geração de Artistas
Modernos da Bahia começa a estruturar-se
a partir de 1960, tendo a maioria dos seus
componentes oriundos da Escola de Belas
Artes. São, portanto, artistas de
formação universitária
e foram responsáveis pelos principais
acontecimentos artísticos da década.
Estes artistas comprometeram-se mais com
os eventos coletivos do que com o sucesso
pessoal. O programa de ação
destes artistas foi bastante diversificado,
contando com palestras em escolas, exposições
coletivas, debates, itinerantes, realização
de painéis coletivos, criação
da Associação dos Artistas
Modernos da Bahia, reedição
da Revista da Bahia, exposições
em praças púbicas, feiras
de arte, organização e realização
de duas bienais nacionais de artes plásticas,
direção de uma galeria de
arte (Convivium). Compondo este grupo estão
os artistas Riolan Coutinho, Sônia
Castro, José Maria, Hélio
Oliveira, Emanoel Araújo, Juarez
Paraíso, Zela Maria, Calazans Neto,
Yêdamaria, Carlos Augusto Bandeira,
Gisélia Figueiredo, Lygia Milton,
Antonieta Gedeon, Sante Scaldaferri, Maria
Ângela, Oliveira Mercedes Kruschewsky,
Edvaldo Gato, Édison da Luz, Elizabeth
Roters, Ângelo Roberto, Luiz Gonzaga,
Edsoleda Santos, Udo Knoff, Henrique Oswald,
Vera Lima, Hilda Oliveira, Jacyra Oswald,
Célia Azevedo, Gley Melo, Leonardo
Alencar, Adam Firnekaes, Edízio Coelho,
Marisa Gusmão, João José
Rescala, Manoel do Bonfim, Humberto Rocha,
Renato da Silveira, Gilberto Oliveira, Liana
Bloisi, Elizabeth Rothers, Duda, Marlene
Cardoso, Vera Lima e Hilda Oliveira. Completando
a lista dos artistas da segunda geração
destacam-se Calazans Neto, Anna Georgina,
Francisco Liberato, Nacif Ganem, Floriano
Teixeira, Mário Cravo Neto, Geraldo
Rocha, Jorge Costa Pinto, Humberto Vellame,
Áureo Abílio, Betty King,
Fernando Coelho, Luciano Figueiredo, Carlos
Estivallet, Adam Firnekaes, Reinaldo Eckenberger,
Willis, João Alves, Cardoso e Silva,
Pedroso, Zu Campos, Fernando Coelho e Juraci
Dórea.
A Escola de Belas Artes foi em grande parte
responsável pela formação
de novos artistas modernos em todas as décadas
e realizou um extraordinário trabalho
na área da gravura. Na Bahia, a gravura
tem sido utilizada desde a implantação
da arte moderna, na década de 40,
através de Mário Cravo Júnior
realizando litogravuras e gravuras em metal.
Tem sido praticadas todas as técnicas
da gravura, destacando-se Lênio Braga,
com litogravuras, Yêdamaria, com gravura
em metal, José Maria, com xilogravura
e Renato da Silveira com serigrafias. Os
artistas baianos da década de 60
deram uma feição especial
à xilogravura, graças ao emprego
do compensado, introduzido por Calazans
Neto, e ao uso inadequado da prensa de água-forte.
Mário Cravo Júnior, em 1957,
foi o primeiro professor de gravura da EBA
da rua 28 de Setembro. Mário Cravo
domina todas as técnicas da gravura
e o seu vanguardismo teve fortes aliados
com a vinda para a Bahia de Henrique Oswald,
em 1959, e do alemão Karl Heins Hansen,
em 1955, mais precisamente para o ensino
da gravura nas oficinas da EBA.
Mas é com Henrique Oswald que se
registrou uma maior influência. Ele
foi um mestre da xilogravura, da água-forte
e da água-tinta. Os seus primeiros
discípulos na Escola de Belas Artes
da Bahia datam de fins dos anos 50 e começo
de 60: José Maria, Hélio Oliveira,
Sônia Castro, Leonardo Alencar e Juarez
Paraíso, surgindo em seguida Emanuel
Araújo, Edison da Luz, Gley Melo
e Edízio Coelho. É quando
ganha impulso definitivo a prática
da gravura na Bahia. Já em 1959 José
Maria está expondo suas naturezas
mortas na V Bienal de São Paulo.
Neste mesmo ano Juarez Paraíso expõe
suas primeiras xilogravuras no VII Salão
Nacional de Arte Moderna do Rio de Janeiro
e Sônia Castro expõe sua primeira
água-forte no V Festival Universitário
de Arte de Belo Horizonte, sendo premiada.
A terceira geração de artista
moderna é da década de 70
e, na EBA, a década teve início
com a inauguração da Galeria
Cañizares, onde foram realizados
os Salões Universitários de
1977, 78,79 e 80. Das centenas de artistas
pertencentes à década de 1970,
muitos são advindos da Escola de
Belas Artes. Esta década conta com
artistas que tiveram grande repercussão
nas subseqüentes, como Bel Borba, J.
Cunha, Justino Marinho, César Romero,
Juraci Dórea e Almandrade. Na década
de 70 destacou-se na Bahia e no Brasil o
grupo ETSEDRON liderado por Matilde Matos
e Edison da Luz. Outro grupo de grande talento
foi o Grupo Posição, constituído
de Sônia Rangel, Juraci Dórea,
Chico Diabo, Zélia Maria, Carlos
Petrovich e Eckenberger.
A partir de 1980 a Escola de Belas Artes
continua presente em todos os acontecimentos
e exposições da época,
com destaque e premiações
Inovando com muito talento vamos encontrar
as interferências de Washington Santana,
trabalhando com o lixo, nas grandes cidades
como São Paulo e Salvador.
RB - Que importância tiveram
e têm as oficinas do MAM-Bahia ?
JP – As Oficinas de Arte do MAMB foram
idealizadas por Francisco Liberato, quando
diretor do Museu, contando, de imediato,
com a minha colaboração e
a de Pasqualino Magnavita. Fui designado
Coordenador das Oficinas de 1980, ano de
sua inauguração, ate 1988.
O meu depoimento abrange apenas este período.
As Oficinas de Arte do MAMB constituíram
uma realidade altamente positiva no ensino
das Artes Plásticas na Bahia. O ensino
das técnicas da gravura em Metal,
da Xilo, da Litografia e da Serigrafia,
da Cerâmica e da Escultura em Madeira,
contou com uma extraordinária equipe
de professores, todos profissionais em suas
áreas, artistas bastantes experientes
e criativos. E foi justamente a sensibilidade
e o conhecimento desses professores a base
essencial do sucesso das Oficinas do MAMB.
Na verdade, todos os funcionários
das Oficinas eram artistas, o que muito
contribui para a culminação
dos seus objetivos. Outro aspecto positivo
foi o fato de pessoas de tãodiferentes
suportes econômicos, sociais e culturais
interagirem diariamente as suas experiências
artesanais e criativas. As oficinas do MAMB
não foram freqüentadas apenas
por iniciantes, mas também por artistas
profissionais que buscavam desenvolver novas
técnicas ou desfrutar do espaço
e da maquinaria disponíveis, valorizados
pela orientação segura dos
seus professores. Artistas altamente criativos
como Eckenberger, Terciliano Jr. e Justino
Marinho, já deram o exemplo do seu
trabalho para os mais jovens e neófitos.
Foi também bastante fértil
o exemplo da pratica dos próprios
artista-professores, como Guache, Paulo
Matos, Florival Oliveira, Márcia
Magno, Maria Betânia, Yêdamaria,
Zu Campos, Ray, Renato Viana e Renato da
Silveira, pois, independente de suas aulas
realizando o seu trabalho de arte, deram
um espontâneo exemplo de criatividade
e prática artesanal. A prova inconteste
da importância das Oficinas residiu
na permanência e evolução
dos seus ex-alunos que estão progressivamente
se afirmando como artistas profissionais.
“...Na verdade, Salvador sempre
teve um mercado de arte frágil, inconsistente.
Na década de 60 houve uma verdadeira
fabrica de primitivos e ainda se faz muita
coisa com selo de arte ingênua para
vender aos turistas como ‘lembrança
da Bahia’. ”
As oficinas
de Arte em Série do Museu de Arte
Moderna da Bahia (Oficinas de Técnicas
de Expressão Arte em Série)
foram inauguradas em marco de 1980, graças
ao convênio firmado pela FUNARTE e
a Fundação Cultural do Estado
da Bahia. Destinavam-se exclusivamente ao
ensino e a prática da gravura em
todas as suas modalidades. Surgiram como
conseqüência de uma nova mentalidade
e de um novo conceito de museu em que o
mais importante é a assistência
à comunidade quanto à formação
e produção artísticas,
com respeito e fortalecimento das suas especificidades
culturais. Por outro lado, ao incrementar
o ensino da gravura, com a seriedade e a
qualidade exigidas, pretendeu-se devolver
à Bahia o prestígio que possuía
na década de 60, com o atelier da
Escola de Belas Artes da 28 de Setembro.
As Oficinas do MAMB têm servido a
centenas de jovens, sem os entraves do academicismo
e do ensino formal. Têm estimulado
a vários artistas emergentes, sendo
todas as suas atividades inteiramente gratuitas.
A partir de 1983, modificou-se a estrutura
organizacional dos cursos das oficinas,
pela introdução das técnicas
de cerâmica e de escultura de madeira,
surgindo a nova denominação
de Oficinas de Expressão Plástica,
com o Departamento de Arte em Série,
responsável como anteriormente pelas
técnicas de gravura, e o Departamento
de Expressão.
Os cursos das Oficinas eram semestrais,
sendo os trabalhos dos alunos expostos permanentemente
na galeria anexa, com o objetivo de avaliar
e divulgar os resultados obtidos.
As Oficinas colaboravam com o programa Museu-Escola-Comunidade
que já realizou atividades de apoio
didático a um elevado numero de estudantes
da rede escolar.
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