O
homem amplo da cidade órfã
Diógenes Rebouças Filho
Lembro do cheiro de terebintina, das cores
das tintas na paleta de madeira e de alguma
paisagem esboçada sobre um suporte
de linho ou eucatex, de tarde, na varanda
dos fundos, que se debruçava sobre
a roça, onde se avistava a Oito de
Dezembro, do outro lado daquela grota verde,
atrás da casa de nº 21 da Avenida
Princesa Leopoldina, e me recordo tê-lo
visto pela primeira vez.
Lembro também de uma divertida caçada
a ratos que passeavam sob a mesma varanda
e dos estampidos do rifle 22 que me causavam
susto com som agudo e seco.

Vendedoras de bolinho de puba - 1950
Com seu riso limpo, dentes brancos e incisivos
ligeiramente montados, ele me tranqüilizava.
Como não se sentir calmo sendo protegido
por aquele homem de garbo e porte heróicos?
A caçada foi interrompida pelo sino
da Igreja da Graça, hora do Angelus
e minha mãe chamava. Hoje, aquele
bairro é diferente. Muita gente e
pouca graça residem naquelas lâminas
esguias de tijolos e concreto, e os quintais,
quase roças, se transformaram em
áreas de lazer com piscinas e quadras
de esportes. Há quem as desfrute.
Só os velhos oitizeiros, antes muito
mais frondosos, continuam a testemunhar.
Depois, longa ausência. Confusão
e muita dor. Ele, após aparecer em
jornais que me eram mostrados para cultivar
meu orgulho e compreensão do fato,
havia ido para a América do Norte,
a trabalho. Sua volta, seu colo e uma lágrima,
a dele, diante de meu rosto estupefato e
inquisitivo. Por que o abandono?
A lágrima, me lembro bem, foi enxuta
pela ponta branca de sua camisa de linho,
sentado na poltrona funcional de Móveis
Arte, em forma de bacia acolchoada, anos
50, desenhada por Antônio Rebouças
e Milton Cayres, irmão e cunhado.
Quanto ao abandono, era justificável:
a arquitetura e desenvolvimento profissional
assim exigiram.
A velha e negra Lucilda, empregada antiga
do vizinho nº 17 da Avenida Princesa
Leopoldina, dizia que ele era filho de Oxóssi,
caçador vaidoso e independente que
sabe atirar a flecha para onde a caça
vai. Certeiro arqueiro atira no futuro,
mas que o trabalho e o suprimento de bem-estar
para a comunidade estão acima de
tudo, até mesmo dos interesses possessivos
da família. De quanta sapiência
são depositárias essas negras
que nos legaram a África!
Hoje, olhando a Catedral de ltabuna, planejada
pelo arquiteto em 1947 e possivelmente a
primeira obra de arquitetura religiosa moderna
do Estado da Bahia, vejo confirmada a predição
do visionário que sacava as formas
do futuro. A casa do Dr. Gileno Amado, nas
margens do Rio Cachoeira, outro exemplo
do inusitado. Uma mansão, não
para ser vista, mas sentida no seu interior.
Uma casa em que nos sentimos respeitados
pela ambiência física planejada;
sem falar do carinho propiciado por Tirú,
Ana Amélia, a sua mais nova habitante,
com chás, damascos secos e confitures
de amoras colhidas no pomar e preparadas
por ela própria. Ana Amélia
ou Tirú deu-lhe o carinho de quase
filha durante sua estada na Europa. Filha
de Maria Célia Calmon, mulher bonita
e insinuante, amiga e pintora, autora dos
painéis da catedral, da Ação
Fraternal de Itabuna e daquela pintura na
entrada da ampla oficina da Escola Parque,
ao lado dos painéis de Carybé
e Mário Cravo, este, já na
época, ali, com uma pintura quase
atômica. Êta turma moderna esta
que trabalhava na Bahia, ao mesmo tempo
que Anísio Teixeira. Edgard Santos,
Godofredo Filho, Mário Leal Ferreira,
Martim Gonçalves, Lina Bo Bardi e
outros tantos geniais !
Lembro das visitas às obras. A Avenida
do Contorno é a mais marcante. Com
ele, no canteiro de obra na encosta da cidade,
ao lado do Palácio do Arcebispo;
embaixo o mar da Baía de Todos os
Santos e logo à frente avançava
a enorme lâmina de concreto em nossa
direção, onde se uniria ao
trecho já em construção,
às nossas costas, sob o viaduto do
Campo Grande.
Foi talvez alí que me tenha apercebido,
com admiração, da magnitude
do seu trabalho. Era enorme a interferência
física que a cidade sofria graças
ao seu desenho. Aquela via que contorna
a cidade ondulando, tal qual o babado da
saia de uma baiana, traz por baixo, vista
do mar, a forma dos arcos, já existentes
na Ladeira da Montanha onde eu sempre queria
ir para ver a “casa dos pombos “
– assim eu apelidara as habitações
dentro dos arcos com janelas sempre cheias
desses pássaros.

Recanto do Dique do Tororó com Lavadeiras
- 1941
Outra grande aventura era a chegada de
Augusto Ruschi, amigo fraterno, provindo,
quase sempre, de Morro do Chapéu
com espécimes raros de beija-flores,
colocados um ao lado do outro, dentro de
pequenos sacos, numa valise repleta. Uma
grande tenda de filó – a gaiola
– era então armada em um dos
cômodos do apartamento e os beija-flores
soltos no seu interior para esvoaçar
em torno dos pequenos frascos cheios de
água com açúcar e descansar
da viagem.
Ruschi trazia sempre notícias das
grandes queimadas que havia visto do avião,
dizimando a Mata Atlântica do Estado
da Bahia, já na década de
60, o que causava grande indignação
à sensibilidade de ecologista do
arquiteto e pintor. E indignação
era o que mais lhe detonava o temperamento
irascível. O tom de voz crescia de
volume assustadoramente, o rosto ficava
rubro, e mesmo que estivesse narrando um
fato já ocorrido, qualquer interlocutor
sem intimidade com o mestre, temeria que
tal exaltação transbordasse
em atos ali mesmo.
Nada. Só a miopia e iniqüidade
humana eram capazes de lhe detonar tal furor.
E como era necessária aquela imagem
terrificante a um homem que detinha em si
o conhecimento de uma melhor via para o
nosso bem-estar e ainda tinha que conviver,
lutar e sobrepujar interesses bem menores,
fossem ingênuos ou gananciosos ! No
mais era doce e meigo. Fosse em tomo das
pranchetas na sala de aula com os alunos
ou em conversas na famí1ia, na varanda
vermelha da casa de sua mãe, sob
a grande mangueira, quando contava as peripécias
de agrimensor, aos 17 anos, na fazenda de
Astério Rebouças, seu tio,
no Vale do Colônia, utilizando a grande
pedra de Couro D’ Anta como marco
orientador para que não perdesse
o rumo na mata ainda fechada.
Os sobrinhos Marúsia e Ronan vibravam
com a história de uma dormida no
mato, na rede, que havia sido armada entre
duas árvores e que, pelo escuro da
hora e o cansaço da jornada, não
foram notados os coquinhos caídos
no seu interior. Ao amanhecer, o corpo do
jovem agrônomo acordou todo marcado
de manchas vermelhas e a debandada foi geral
entre os homens que acompanhavam a tropa
– carregando os instrumentos e víveres.
Gritavam: “O doutor está com
a peste! O doutor está com varíola!”.

Paisagem de São Tomé de Paripe
- 1938
As conversas na varanda variavam de tema.
Tendiam mais para a política, se
o cunhado Mílton Cayres já
tivesse vindo do Jornal da Bahia onde trabalhava
e, naquela década de 60, trazia as
notícias frescas de Brasília.
Se fossem as férias de final de ano,
com certeza Zezito, o irmão mais
velho e chegado, estaria presente falando
dos últimos artefatos da tecnologia
americana, alemã ou japonesa, como
relógio sem corda, máquinas
de fotômetro embutido etc, ou ainda,
das mais recentes descobertas na oftalmologia,
sua profissão. Um diálogo
entre ele e esse irmão, em 1931,
no percurso a pé, da residência
em Santo Antônio Além do Carmo,
passando pela Escola de Medicina, onde Zezito
ficava, e ele seguia até a Rua do
Tijolo para a aula de desenho, na Escola
de Belas Artes, ilustra a diferença
de temperamentos e de objetos de interesse.
“Eram interessantes as nossas conversas
nessas caminhadas. Zezito já cursava
o 3º ano de Medicina e eu não
dava para nada. Só queria desenhar.
Ia com minha sensibilidade, meio flutuante
pousando de vez em quando em algum aspecto
das cores e formas das casas do Pelourinho.
Às vezes eu olhava, exaltando a beleza,
para alguma cor nos casarios ou para as
formas de uma lavadeira agachada que trabalhasse
num quintal. Zezito desprezava completamente
aquela percepção”, lembra
Diógenes.
Na sua visão de sanitarista e quase
médico só via os focos de
contaminação de doenças
endêmicas na época, como a
tuberculose. Eu me recordo; continua o professor,
quando um dia íamos subindo a ladeira
do Pelourinho e vinha descendo um negro,
sem camisa, muito suado, com a luz do sol
da tarde da Bahia fazendo pictóricos
reflexos no tórax lustroso que sustentava
um formidável peso. Eu chamei a atenção
de Zezito para os efeitos que a luz causava
no suor do homem e Zezito retrucou: –
Olhe é para a jugular dele, como
está saltada pelo peso. Este pobre
homem vai ter é um aneurisma neste
instante!” Que diferentes formas de
ver !
Feira de utensílios de barro em Águas
de Meninos - 1950
Com Antônio, o irmão caçula,
além de boas gargalhas que nos fazia
dar, também podíamos visitá-lo
no atelier na garagem, empunhando um maçarico,
com óculos de solda a esculpir no
ferro ou bronze as pequenas obras que mais
tarde viriam a fazer muito sucesso na Alemanha.
Ele ainda não era o pintor de hoje.
É dessa ocasião a visita do
amigo Burle Max que, a pedido do então
prefeito Antônio Carlos Magalhães,
Diógenes tinha convidado para vir
desenhar as praças e jardins da cidade.
Antônia, excelente cozinheira, preta
do Recôncavo, com esmero, preparou
uma moqueca daquelas, servida sobre toalha
imaculadamente branca, no apartamento do
Campo Grande, com vista para a Baía
de Todo os Santos. Também pudera,
Antônia tinha sido treinada por Aurinha,
única irmã. E que irmã!
Uma alma monumental e sólida como
rocha. Mulher de porte altivo, trabalhadora
e excelente quituteira, mas, a maior qualidade:
a integridade entre espírito e coração.
Parece que o atrito da vida em sua alma
forjou uma liga inquebrantável de
generosidade, compreensão e amor
sem grandes rasgos, mas firme. Era adorada
pelo irmão e sua confidente íntima
depois da morte de Zezito. Mas, o travesso
menino grapiúna, por adoção,
tinha uma outra companheira: D. Delza. Morena,
bem fornida e dedicada que lhe dava afeto,
atenção e certos cuidados,
aliás, muitos deles, inclusive Juninho,
um filho emprestado e bem-amado, o que lhe
propiciou alegria e bem-estar para que realizasse,
já nos ano 70 e 80, a coleção
de Pintura Documental de Salvador no Séc.XIX.
Se sentiu, rigoroso como era, que a atuação
como preservador do Patrimônio Histórico
e Artístico Nacional durante anos
de exercício no IPHAN, não
havia sido suficiente para preservar muitos
aspectos urbanos e arquitetônicos
da cidade devido a entraves burocráticos,
econômicos e políticos. “E
o que não pôde contribuir para
salvar diretamente, refez com a sua arte”;
afirma o professor Cid Teixeira. Pegou desta
vez os pincéis e telas no lugar do
esquadro e lápis e documentou sítios
e monumentos, preservando-os no óleo
e acrílico para que não houvesse
lacuna na memória das gerações
futuras do próprio entorno urbano.
Antes nas décadas de 40 e 50 os havia
também pintados em aquarela. Mais
uma vez nos deparamos com a generosidade
de um homem amplo.
Este era o meu pai. Um grande homem. E,
quando uma grande peça do caleidoscópio
da nossa existência se vai, não
é sem dor e tempo que as outras peças
se reposicionam para ocupar a enorme lacuna,
formando o novo desenho do presente. Eu
e minha família sentimos saudade.
Mas sentimos, de forma diferente, pela Cidade
do Salvador, minha cidade e cidade de adoção
de Diógenes que também ficou
órfão de um quase pai. E também
filho. Que muito lhe facilitou a vida projetando
sempre de acordo com seu relevo e capricho.

Av. Contorno - Salvador - Marcante obra
de Diógenes Rebouças
Foto - Jota Freitas
Temos esperança que nos atuais e
futuros governantes haja a sensibilidade
e a sorte que tiveram Otávio Mangabeira,
Norberto Odebrecht e Antônio Carlos
Magalhães, em encontrar Diógenes
Rebouças para interferir de forma
tão veemente e pura na realidade
física da nossa cidade, visando a
melhoria da qualidade de vida de todos nós.
Diógenes Rebouças Filho –
Graduado em Comunicação pela
UFBa e com pós-graduação
em Inteligência Competitiva - através
de convênio entre o Instituto da Ciência
de Informação da UFBa, Instituto
Brasileiro de Informação em
Ciência e Tecnologia e Université
de Aux Marseille III, da França.
Faz mestrado na UFBa em Gestão do
Conhecimento e é assessor da Superintendência
da Fundação Luís Eduardo
Magalhães.
Fotos: Raimundo Silva
Referências Bibliográficas
REBOUÇAS FILHO, Diógenes.
O homem amplo da cidade órfã.
A Tarde, Salvador, 29 jun. 1996. A Tarde
Cultural, Caderno 3, p. 8-9.
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