Museu
de Arte da Bahia

Escadaria do MAB
Histórico
A história do mais antigo museu do
Estado, e um dos dez primeiros fundados
no Brasil, começa a ser delineada
em 1871, quando o Vice-presidente da Província
da Bahia, Francisco José da Rocha,
compra da família do médico
inglês Jonathas Abbott, radicado há
muitos anos em Salvador, uma coleção
de pinturas – quadros de pintores
europeus e baianos – para constituir
uma galeria no Liceu de Artes e Ofícios.
Em 1918, durante o governo de Antônio
Francisco Moniz de Aragão, graças
ao esforço do historiador e diretor
do Arquivo Público Francisco Borges
de Barros, é criado o Museu do Estado,
que funcionou durante muitos anos como anexo
do Arquivo Público. Tinha um acervo
bem diversificado e incluía desde
documentos impressos ou manuscritos às
coleções etnológicas,
peças relativas às ciências
naturais, mobiliário e numismática.
Em 1920, no governo de J.J. Seabra, o Arquivo
Público e o Museu do Estado passam
a ser subordinados à Secretaria do
Interior, Justiça e Instrução
Pública. O Museu passa a ter três
seções – Etnologia,
Numismática e História –
e vai gradualmente sendo ampliado. Em 1925,
no governo de Francisco Marques de Góes
Calmon, o Museu do Estado, que ainda funcionava
como anexo do Arquivo Público, ganha
uma pinacoteca. As telas de Jonathas Abbott,
que estavam no Liceu de Artes e Ofícios,
são incorporadas ao seu acervo e
a Bahia passa a ter, oficialmente, a sua
primeira pinacoteca. Três anos depois,
o governador Góes Calmon reformula
o regulamento do Arquivo Público
e Museu do Estado, que passa a ser chamado
de Museu da Bahia e com três seções:
Arquivo, Museu e Gabinete Numismático
da Bahia, com peças cunhadas no Estado
entre 1695 e 1831. Em dezembro de 1930,
no governo do interventor Leopoldo Amaral,
por força de um decreto essa denominação
é alterada para Arquivo Público
e Inspetoria de Monumentos. Em 1931, em
um outro decreto, é criada a Pinacoteca
do Estado como setor independente do Arquivo
Público. A Pinacoteca passa a ter
duas seções – Histórica
e Contemporânea, além do Museu
Histórico, anexo à Pinacoteca,
com peças de arqueologia existentes
no Arquivo Público. A Pinacoteca
ganha sede própria e passa a ocupar
o Solar Pacífico Pereira, na Praça
Dois de Julho, no Campo Grande, na mesma
área onde posteriormente foi construído
o Teatro Castro Alves. Em 2 de julho daquele
ano, a Pinacoteca do Estado abre as suas
portas para visitação pública.
Em 1933, na gestão do interventor
Juracy Magalhães, a Pinacoteca passa
à categoria de Inspetoria, com a
denominação de Pinacoteca
e Museu do Estado, subordinada à
Secretaria do Estado do Interior, Justiça
e Saúde Pública. Anos depois,
o interventor Landulpho Alves vincula a
Pinacoteca e Museu, junto com a Inspetoria
de Monumentos, à Secretaria de Educação,
Saúde e Assistência Pública.
De 1939 a 1959, José Antônio
Prado Valladares, historiador e crítico
de arte, assume a direção
da Pinacoteca e Museu do Estado. Com ele
começa a ser organizada a documentação
referente ao acervo – pesquisa, registro
e catalogação das peças.
Prado Valladares também incrementa
a biblioteca do Museu, criada em 1931, com
a aquisição de uma vasta bibliografia
especializada. Além disso, dá
início a uma linha de publicação
editada pelo Museu. Em 1943, o Governo do
Estado compra o palacete da família
do ex-Governador Góes Calmon, no
bairro de Nazaré, junto com suas
coleções de porcelanas, pratas,
cristais, móveis, esculturas religiosas
e pinturas com a finalidade de incorporá-las
ao Museu do Estado. Três anos depois,
a Pinacoteca e o Museu deixam o Solar Pacífico
Pereira e são transferidos para o
Palacete Góes Calmon, onde há
mais espaço para abrigar o acervo.
Em 1959, a Pinacoteca é desmembrada
e a coleção de arte contemporânea
passa a integrar o acervo do novo Museu
de Arte Moderna da Bahia, sob a direção
da arquiteta italiana Lina Bo Bardi. Ainda
em 1959, o professor Carlos Eduardo da Rocha
assume a direção do Museu
do Estado, onde fica até 1974. No
governo de Luiz Viana Filho, o Palacete
Góes Calmon passa por uma grande
reforma. Por causa das obras são
abertos locais provisórios para exposição
do acervo e uma parte das peças é
levada para as salas do Convento do Carmo.
Várias peças também
são transferidas, em comodato, para
o Museu do Recôncavo Wanderley Pinho.
De 1975 a 1979, o Museu de Arte da Bahia
teve como diretora a museóloga Ana
Lúcia Uchoa Peixoto, que foi substituída
pelo decorador e crítico de arte
José de Souza Pedreira, que lá
ficou até morrer em 1981. Assume,
então, o artista plástico
Emanoel Araújo, que cuida da transferência
do acervo de Nazaré para a atual
sede do Museu no bairro da Vitória.
Com apoio do então governador Antonio
Carlos Magalhães, o casarão
foi totalmente restaurado e adaptado às
necessidades de um museu moderno e dinâmico,
tendo sido recuperada também uma
grande parte do seu valioso acervo. Completamente
instalado em sua nova sede, o Museu de Arte
da Bahia é reinaugurado em 5 de novembro
de 1982. De 1983 até início
de 1991, o Museu teve como diretores o artista
plástico Luís Jasmin, além
das museólogas Antônia Barros
Pinheiro e Valdete Paranhos. Em abril de
1991, a museóloga Sylvia Athayde
é nomeada diretora do Museu de Arte
da Bahia, cargo que conserva até
hoje. Com ela, chega um novo período
para a instituição, que mais
uma vez conta com o apoio do governador
Antonio Carlos Magalhães. O Museu,
que estava fechado há dois anos,
é recuperado e ganha nova orientação
museológica. O acervo passa por um
amplo trabalho de restauração,
que inclui 50% da coleção
de pintura, 90% das obras de arte com suporte
em papel, além da recuperação
de peças importantes da escultura
religiosa, mobiliário e porcelana.
Nas salas de exposições temporárias
foram instalados, desde 1994, equipamentos
de climatização, que permitem
o controle de umidade, e no final de 1995
tanto a reserva técnica como o auditório
foram também climatizados com recursos
do Governo do Estado. Agora, a direção
do Museu de Arte da Bahia está propondo
a criação de novos espaços
e para isso sugere a construção
de um prédio anexo ao casarão,
com acesso pelo Vale do Canela e com estacionamento
para os freqüentadores, onde poderá
abrigar o Teatro do Museu, um Café-
Restaurante com pátio para apresentações
musicais, entre muitas outras novidades.
O palacete
O casarão que hoje abriga o Museu
de Arte da Bahia, chamado de Palácio
da Vitória, guarda uma íntima
relação com a vida social,
política e econômica de Salvador,
desde o início do século XIX.
Fica na Avenida Sete de Setembro, no trecho
conhecido como Corredor da Vitória,
área considerada nobre da cidade
por ter abrigado, até meados do século
XX, mansões de tradicionais famílias
da sociedade baiana. No mesmo local, no
início do século XIX, tinha
sido construído o palacete de José
de Cerqueira Lima, rico negociante de escravos.
Em 1858 o palacete foi vendido ao professor
Francisco Pereira de Almeida Sebrão,
que ali instala o Colégio São
José, instituição com
papel importante na evolução
pedagógica na Bahia. Em 1879, o governo
adquire o imóvel e após ampla
restauração serve de residência
oficial dos presidentes da Província
da Bahia e após 1889, já com
a República, se transforma em Palácio
dos Governadores. No governo de Francisco
Marques de Góes Calmon (1924- 1927),
o antigo palacete, já arruinado,
é demolido. No mesmo local é
construído um prédio de cimento
armado em estilo neo-colonial para sediar
a Secretaria de Educação e
Saúde. O novo palacete é enriquecido
com diversos elementos decorativos provenientes
da demolição de outros solares.
A portada seiscentista em canturia e madeira
entalhada, por exemplo, veio do Solar João
de Aguiar Marcos, demolido para o alargamento
da Ladeira da Praça, no Centro Histórico
e onde, em 28 de janeiro de 1808, o Príncipe
D. João assinou a Carta Régia,
que abriu os portos do Brasil a todas as
nações. O Palácio da
Vitória tem três andares: no
térreo, o saguão de entrada
com sua escada monumental assegura a integridade
da época e dá acesso ao Salão
de Exposições Temporárias,
auditório, administração
e loja do museu. No pavimento superior fica
a Exposição Permanente com
o acervo do museu, além e abrigar
a reserva técnica. E no sub-solo
funcionam almoxarifado, guarda de livros
e a central de carpintaria.

José Theóphilo de Jesus –
América – óleo s/ tela
– Acervo MAB
Acervo
O acervo do Museu de Arte da Bahia é
formado por várias coleções
organizadas na Bahia, a partir do século
XIX, com destaque para a coleção
de Jonathas Abbott, que deu origem à
primeira Pinacoteca do Estado. Essa coleção
reúne os principais representantes
da Escola Baiana de Pintura dos séculos
XVIII e XIX como José Joaquim da
Rocha, seu fundador, José Theóphilo
de Jesus, Franco Vellasco, Rodrigues Nunes,
Francisco e Manoel Lopes Rodrigues, Silva
Romão, Bento Capinam, Cunha Couto,
Presciliano Silva dentre outros. A pintura
estrangeira adquirida por Jonathas Abbott
na Europa também representa um conjunto
significativo de obras de várias
Escolas européias dos séculos
XVII e XVIII: italiana, francesa, flamenca
e holandesa. Destaque para obras de grande
beleza plástica como Retrato de Mulher,
atribuída a Goya, além de
cópias de trabalhos de artistas famosos,
a exemplo de Guido Reni retratando Beatriz
Cenci e Caravaggio com o seu Davi. Outra
coleção valiosa incorporada
ao Museu foi a do Governador Góes
Calmon com peças de arte decorativa
– móveis raros, porcelanas
orientais e européias, pratas, cristais,
esculturas religiosas e algumas pinturas.
Em 1982, o Museu recebe uma doação
póstuma do seu ex-diretor José
Pedreira, com cerca de 50 peças –
entre mobiliário, objetos orientais
e europeus. Dentro de uma política
de ampliação e valorização,
a direção do Museu de Arte
da Bahia vem adquirindo nesses últimos
anos novas peças. O acervo permanente
guarda retratos de figuras representativas
não só da Bahia, mas também
do Império e da República
brasileiros. Ali estão, por exemplo,
A Alegoria da República, uma grande
tela do pintor baiano Manoel Lopes Rodrigues
datada de 1896 e realizada em Roma, na Itália,
e mais: o retrato do Imperador D. Pedro
I, obra de Franco Velasco (1780- 1833) por
ocasião da visita do Imperador à
Bahia em 1826, além do grande retrato
de D.Pedro II, do pintor carioca Osvaldo
Teixeira (1905- 1974), e a tela do pintor
baiano Luís Tourinho Gomes, da primeira
metade do século XIX, que mostra
D.Pedro II quando criança. No que
diz respeito às artes decorativas,
o Museu de Arte da Bahia possui ainda peças
belíssimas do mobiliário baiano,
porcelanas orientais e européias,
prataria e objetos de uso cotidiano agrupados
em diversos ambientes. Destaque para um
grande banco com assento de palhinha, do
final do século XVII, procedente
da Casa da Relação, que ficava
ao lado do Palácio do Governo, na
atual Praça Thomé de Souza,
e uma cadeirinha de arruar, como testemunho
do meio de transporte usado nas ruas de
Salvador, principalmente no século
XIX. Chamam a atenção também
as arcas que revelam as suas origens baianas,
não apenas nas madeiras utilizadas,
mas principalmente na interpretação
dada pelos marceneiros do século
XVIII aos modelos portugueses do barroco
seiscentista. A presença de um móvel
elegante e confortável, denominado
“pregulceiro” revela o hábito,
antigamente tão difundido, de fazer
a sesta. Não ficaram de fora, os
móveis de caráter religioso
com seus bancos compridos de assento de
couro lavrado e pernas torneadas, cômoda-oratório
e estante para música conhecida também
como atril, que era utilizada no coro das
igrejas. Da pequena, mas selecionada coleção
de objetos de prata que se encontra em exposição
no Museu de Arte da Bahia, podem ser apreciadas
a beleza de um conjunto de peças
da liturgia católica, além
de salvas neoclássicas, castiçais
e pencas de balangandans. Jóias de
ouro usadas pelas crioulas, como pulseiras
de copo e de punho, correntes e colares
de bolas e a série de miniaturas
pintadas sobre lâmina de marfim ou
placa de porcelana montadas em ouro e contornadas
de crisólitas, além das jóias
em coral, também fazem parte do acervo
permanente do Museu de Arte da Bahia. Os
leques do tipo mandarim, com estojo em laca
pintada, de renda e de prata filigranada
com aplicações de esmalte
mostram o requinte das mulheres nos séculos
passados. As porcelanas representam uma
das mais importantes coleções
que integram o acervo do Museu de Arte da
Bahia, conforme se pode observar através
do magnífico conjunto exposto em
grandes vitrines. São, na maioria,
de fabricação chinesa e quase
todas as peças produzidas durante
a Dinastia Ts´ing( 1662- 1821). Nos
séculos XVIII e XIX chegaram à
Bahia um número incalculável
de serviços de mesa, com suas terrinas,
sopeiras e variadas travessas, além
de objetos ornamentais como vasos, jarrões,
potiches e figuras orientais. A porcelana
da Índia ou Companhia das Índias,
louça chinesa feita sob encomenda
e exportada através de várias
companhias de comércio, também
aqui aportaram. Com a vinda do Príncipe
D.João para o Brasil ficaram muito
conhecidos os serviços de “pavões”,
“dos galos” e “das corças”
usados no Paço de São Cristóvão
e na Fazenda Imperial de Santa Cruz. Também
a louça azul e branca chegaram à
Bahia, em larga escala, a chamada louça
de Macau, que em Portugal é denominada
de Cantão. Tudo isso e muito mais
faz parte da exposição permanente
do acervo do Museu de Arte da Bahia, que
possui ainda coleções de numismática,
desenhos, gravuras, fotografias e documentos
históricos. Sem dúvida, um
grande conjunto de obras com inestimável
valor artístico e histórico,
Biblioteca
A biblioteca foi fundada em 1931 pelo historiador
Francisco Borges de Barros com cerca de
300 volumes. Só começou a
funcionar efetivamente em 1940. Quatro anos
depois, consegue, pela primeira vez, dotação
própria, a qual foi remetida ao Inspetor
do Museu, professor José Valladares,
que se encontrava nos Estados Unidos e lá
comprou revistas e livros, principalmente,
nas especialidades de pintura e artes decorativas.
Seu acervo tem sido muito importante nas
atividades de pesquisa desenvolvidas pelo
Museu de Arte da Bahia, além de servir
ao público em geral. Conhecida como
Biblioteca do Museu, em março de
1983 passou a chamar-se Biblioteca José
Pedreira. Enriquecida constantemente através
de doações, a biblioteca tem
cerca de 9 mil livros e 15.815 recortes
de jornais, além de uma grande coleção
de catálagos de exposições
individuais e coletivas. Sua coleção
de periódicos nacionais e estrangeiros
reúne cerca de 261 títulos,
que também estão à
disposição do público.
Texto: Edinete
Melo
ASCOM/Fundação Cultural do
Estado
Colaboradora: Maria Virgínia Calmon
Santos
Assessora da Direção do Museu
de Arte da Bahia.
Próxima
página
|