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O SOLAR DO UNHÃO E O MUSEU DE ARTE MODERNA DA BAHIA
Heitor Reis

 

O Museu de Arte Moderna da Bahia instalado em um sítio histórico do século XVI se constitui numa parte da vida da Bahia.


Acompanhando o desenvolvimento da recém-formada aristocracia colonial, teve, até meados do século XVIII, seu período áureo. A casa-grande recebeu feições mais requintadas, vieram os painéis de azulejo português do passadiço, o chafariz e a capela reedificada, foi consagrada a Nossa Senhora da Conceição.


Vista aérea do Solar do Unhão/Museu de Arte Moderna da Bahia

No início do Século XIX, com a crise da cultura açucareira, o Solar foi arrendado. Iniciou-se então, um processo de crescente degradação do conjunto.


Gradil de Carybé

Tombado pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional, em 1943, depois foi adquirido e restaurado pelo Governo do Estado da Bahia e com projeto arquitetônico de Lina Bo Bardi, em 1963, no Solar, é instalado o Museu de Arte e Tradições Populares. Três anos depois, passa a sediar o Museu de Arte Moderna da Bahia (MAM-BA), que já vinha movimentando a cultura baiana desde a sua criação em 1960, quando funcionava no foyer do Teatro Castro Alves.


A falta de conservação do conjunto conduziu a deflagração de novas obras de recuperação, a partir de 1991, concluídas em 1993. Com isto, o Solar foi dotado de modernas e eficientes instalações capazes de atender às demandas inerentes ao campo de atuação de um Museu dinâmico e atual.

Hoje, como conseqüência de um esforço contínuo de modernização, o MAM destaca-se como um dos mais importantes museus do País, pelo acervo que possui e por ser um centro vivo e dinâmico de educação e produção artística, dentro do contexto da contemporaneidade.

ACERVO PERMANENTE

O Museu de Arte Moderna da Bahia possui um rico acervo composto de obras dos mais expressivos artistas brasileiros. Resultado de um processo histórico que remonta às cinco últimas décadas, toda a história do modernismo brasileiro em sintonia com as tendências contemporâneas, encontra-se representada no acervo do MAM através de artistas como: Tarsila do Amaral, Djanira, Portinari, Di Cavalcanti, Cícero Dias, Iberê Camargo, Burle Marx, Volpi, Rubem Valentin, Antônio Bandeira, José Guimarães, Sante Scaldaferri, Mário Cravo, Tunga, Chico Liberato, Emanuel Araújo entre dezenas de outros nomes do cenário da arte moderna e contemporânea.


José Guimarães – Mulher com franja – óleo s/ tela


SALÃO DA BAHIA


O Salão da Bahia é hoje reconhecido como o mais representativo da produção contemporânea brasileira pela pluralidade estética e qualidade do conteúdo. Com grande orgulho, temos assistido a Bahia participar do processo de renovação da criação e do pensamento das artes plásticas, como acontecia nos anos 60 com as antológicas bienais sediadas em Salvador. O Salão da Bahia veio para preencher esse espaço já perdido e sua criação foi ação decisiva para o desenvolvimento e o sucesso da estratégia cultural do Estado. Ao longo de uma década o Salão afirmou-se como uma das mais importantes exposições coletivas do Brasil, sensibilizando um número cada vez mais expressivo de jovens e talentosos artistas brasileiros. Enquanto o Salão Nacional de Artes Plásticas (criado em 1840 pelo então Imperador D. Pedro II) teve suas atividades encerradas pelo Ministério da Cultura, a Secretaria da Cultura e Turismo, através do Museu de Arte Moderna da Bahia acertadamente investe em seu Salão, alcançando o reconhecimento de todos os agentes e produtores do Brasil.

A receita para o sucesso da iniciativa foi simples: apenas respeitar os seus compromissos iniciais, analisando a história, respeitando a tradição e a ela incorporando novos conceitos exigidos pela prática contemporânea.

Enquanto as técnicas decretavam a imposição das mostras de “curador”, o fracasso das mostras competitivas, o anacronismo das premiações, querendo assim valorizar apenas o olhar normativo e excludente dos “pesquisadores”, o MAM da Bahia apostou na diversidade, na valorização de um olhar pluralista e sensível que registrasse e valorizasse a capacidade criativa dos artistas brasileiros em qualquer técnica, qualquer linguagem. A inscrição através de “dossiês” permite a participação de cerca de 2000 concorrentes a cada evento e o pagamento de pro-labore, para os 30 artistas participantes, significa o reconhecimento ao profissionalismo além de dignificar a Instituição.

“Arte não é uma coisa inútil, reservada para um pequeno grupo restrito e intelectualizado. Isso é que pretendemos provar com os planos que temos para execução do Museu de Arte Moderna. A criança aqui terá um campo de pensamento e desenvolvimento. O artista industrial, o simples artesão, aquele que faz um funil de uma folha de lata, verá que seu trabalho também é arte. Não quero fazer um museu para exposições. Quero um centro vivo de esclarecimento ao público, de educação, de habitação, de produção [...] Museu é uma palavra imprópria para a nossa atividade; nos Museus do mundo estão as pinacotecas. O nosso MAMB deveria ser Escola, Centro, Movimento, desde quando se instala na cidade que possui a maior tradição artesanal do Brasil e que está situada dentro de um clima humano e social onde, melhor do que em qualquer lugar, a arte e a cultura podem se desenvolver [...] No Museu se guarda, se expõe. Aqui haverá cursos, conferências, uma revista de arte e muitos outros trabalhos”.
Lina Bo Bardi. Diário de Notícias, Salvador, 6 jan. 1960. (Arquivo do Setor de Museologia do Museu de Arte Moderna da Bahia).

A arte contemporânea povoa as paredes e os espaços do imponente Solar do Unhão, tão repleto de história, povoando-o de cores, formas, inquietudes, cantos e encantos... Enquanto a formação dos acervos dos museus brasileiros ocorre, em sua maioria, graças a ações individuais de colecionadores e mecenas, o Museu de Arte Moderna da Bahia utilizou-se do Salão como instrumento determinante de sua política de aquisição. A cada ano novas obras são incorporadas contribuindo assim para a criação de um conjunto múltiplo e variado que represente a verdadeira face de nosso país e revele a todos a inteligência e o dinamismo cultural da nossa eterna Bahia.

O PARQUE DAS ESCULTURAS

Em 1998, após a restauração e a implantação de um programa de dinamização, o MAM ampliou seu espaço de lazer e atividades culturais através do parque que ficou conhecido como Parque das Esculturas , criado com a finalidade de expor obras de grandes artistas como Siron Franco, Bel Borba, Mário Cravo, Chico Liberato, Juarez Paraíso e Antônio Mourão (Tunga).


Miguel dos Santos – Benin – escultura em resina e fibra de vidro

Foram instaladas 21 obras, com destaque para o portal de entrada e o mural de Carybé, intitulado Gente em Movimento.

A variedade de estilos, gerações e as diversas opções de percursos, proporcionam aos visitantes diferentes experiências estéticas e sensoriais.

Um salão para exposição, com iluminação especial e climatização, faz parte do Parque e foi criado para expor as obras do artista baiano Rubem Valentim pertencentes ao acervo do MAM.

No projeto, a arquiteta Rosa Granna Kliass preocupou-se com a preservação das características naturais do local, aproveitando a topografia e as árvores de grande porte, o que resultou em caminhos e espaços agradáveis para o visitante.

Com o Parque das Esculturas cresceu o número de visitantes do MAM, contribuindo para que se tornasse um dos museus mais visitados do país.

OFICINAS DO MAM

Completando 25 anos de sua criação, em 2005, as Oficinas do MAM cumprem sua função educativa formando, descobrindo e incentivando novos talentos artísticos. Nelas, funcionam 18 cursos com média de 350 alunos por semestre, abrangendo teoria e prática, preparando artistas iniciantes no sentido de que possam mostrar sua sensibilidade e criatividade dentro da técnica por eles escolhida seja pintura, gravura (em suas diversas modalidades), desenho, serigrafia, escultura, cerâmica e outros.

Vale salientar que vários ex-alunos já ocupam lugar de destaque no mercado de arte. São eles: Bel Borba, Vauluízio Bezerra, Zive Giudice, Guache Marques, Leonardo Celuque, Airson Heráclito, Paulo Pereira, Bete Souza, Mônica Medina, Gabriel Arcanjo entre outros.


Casarão principal de exposições

 

POLÍTICA DE DINAMIZAÇÃO DO MAM

Além da manutenção do Salão da Bahia, do Acervo Permanente, do Parque das Esculturas e das oficinas, o MAM desenvolve sua política de dinamização em torno dos seguintes eixos:
Exposições sistemáticas cerca de quatro por mês, de artistas jovens e consagrados que tenham em suas obras um olhar voltado para a contemporaneidade;
Intercâmbio com instituições brasileiras e internacionais, visando a inserção da Bahia no contexto da globalização das artes plásticas;
Apoio através de recursos financeiros, publicações e cessão de espaços, numa política de valorização e incentivo aos artistas da Bahia;
Cursos, seminários e workshops, objetivando a formação de artistas e de público.

Heitor de Araújo Góes Reis – Graduado em Museologia pela UFBa, foi diretor de Museus e Artes Plásticas da Fundação Cultural do Estado da Bahia, e hoje dirige o Museu de Arte Moderna da Bahia. É Vice-Reitor das Faculdades Integradas da Bahia. Recebeu o Triomus, prêmio da UNESCO na categoria Ação e Desenvolvimento.

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