A
Música de João Gilberto:
a Visão de Aderbal Duarte
Lucas Robatto
As principais informações
apresentadas neste texto são os frutos
das observações, pesquisas
e prática de Aderbal Duarte, que
ao ser consultado por mim para escrever
um texto sobre João Gilberto, ofereceu
a contrapartida de fornecer-me as informações
e orientações para que eu
pudesse elaborar um texto mais adequado
aos objetivos e ao público deste
periódico. Procurei então
criar uma espécie de meta-discurso,
que apresenta seu objeto principal –
os procedimentos estéticos e técnicos
presentes na música de João
Gilberto - através do enfoque de
um músico de reconhecido mérito
artístico, pedagógico e teórico
– Aderbal Duarte – porém
sem me furtar a chegar a algumas conclusões
próprias.
Logo no primeiro encontro com Aderbal compreendi
o porquê de sua resistência
em apresentar um texto próprio: o
seu grau de compreensão e imersão
no tópico em questão é
tanto que as presentes limitações
editoriais dificultariam a sua decisão
sobre a seleção de informações
a serem apresentadas em um espaço
pré-determinado – Aderbal está
revelando um universo tão vasto,
que é difícil limitá-lo.
Após alguns encontros (entrevistas,
que na verdade foram mais “palestras”),
e após a sua revisão do presente
texto, sinto-me a vontade em poder discorrer
sobre este enfoque tão acurado e
revelador sobre um tópico de tamanha
importância para a nossa cultura musical.
Apesar de estar aqui emprestando a minha
“voz”, espero estar “cantando”
a “canção” de
Aderbal, uma “canção”
sobre a voz e o violão de João.
***
Falar sobre a importância de João
Gilberto para a cultura musical brasileira
pode ser até desnecessário
de tão óbvia, e não
faltam depoimentos de importantes músicos
e intelectuais, de diversas partes do mundo,
e de diferentes gerações,
reconhecendo seu débito para com
a música de João. Contudo
uma característica fundamental da
produção artística
de João é pouco salientada:
ele é fundamentalmente um compositor
e intérprete.
Tradicionalmente o compositor e sua obra
é que servem como paradigmas para
a compreensão de um determinado período
ou estilo musical, sendo a figura do intérprete
relegada a um plano secundário, dependente
de contingências temporais e locais.
Seria como se uma determinada obra (ou compositor)
se firmasse no repertório de uma
determinada cultura, “apesar”
das sucessivas e diferentes interpretações
a que fosse submetida, ao decorrer de um
determinado período de tempo. Já
o estilo de interpretação
de João Gilberto é tão
marcante e influente que se consolidou na
prática musical brasileira (e internacional),
“apesar” das obras por ele interpretadas,
em diferentes épocas. Em João
conta mais como ele toca, e não o
que ele toca – valendo a ressalva
de que o repertório escolhido por
João é de altíssima
qualidade, e muitas vezes impulsionando
o resgate de repertórios de épocas
passadas e a divulgação de
novas criações.
O entendimento desta inversão de
enfoque é fundamental para a abordagem
que Aderbal vem conferindo à criação
musical de João Gilberto. Afinal,
sendo João essencialmente um intérprete,
é fundamental que se compreenda qual
o papel que um intérprete cumpre
no processo de criação e transmissão
da música em nossa cultura: o intérprete
é o responsável pela realização
sonora das idéias e estruturas contidas
em uma determinada obra musical.
As obras musicais são estruturadas
(por um autor, por uma coletividade, por
uma prática cultural, etc.) de forma
que apresentem – e mesmo exijam –
espaço para que o intérprete,
através de suas decisões ao
realizar idéias musicais abstratas
em sons concretos, confira sua visão
idiossincrática da obra. A cada execução
o intérprete “dá vida”
novamente à obra, sendo cada execução
da mesma obra necessariamente única
e particular. A cada nova execução,
um mesmo intérprete recria a obra
que está interpretando, de forma
original, sendo o resultado sonoro sempre
diferente. Esta característica de
renovação constante de resultado
estético, mesmo se tratando de uma
mesma obra musical, é uma constante
em João Gilberto.
As interpretações de João
Gilberto podem ser também caracterizadas
– e devem ser entendidas - como arranjos
(que são também uma forma
de interpretação), pois as
obras por ele interpretadas são sempre
adaptadas à sua voz e violão,
sendo assim acrescidas de novas características,
não presentes em suas versões
originais. Como veremos adiante, João
Gilberto redimensiona as obras que interpreta,
adaptando-as às suas características
vocais, violonísticas, e principalmente
à sua concepção e senso
estético, salientando a cada obra
o cuidado, o rigor, e a delicadeza, que
constituem a sua personalidade.
O caráter essencial de arranjador
de João é demonstrado a cada
interpretação sua de uma obra,
tanto que mesmo quando João executa
uma obra com um conjunto maior (orquestra,
por ex.), os arranjos instrumentais são
elaborados (geralmente por outros músicos),
a partir do arranjo original de João,
este sempre para violão e voz.
***
Muito já foi escrito sobre o impacto
estético de João (Augusto
de Campos, Caetano Veloso, etc.), e mesmo
algo sobre suas inovações
técnico-musicais (Walter Garcia),
porém fazia-se necessário
um enfoque que pudesse explicar a forma
como estas inovações técnicas
dialogam com o resultado estético
na música de João. Este é
o principal objetivo das pesquisas atuais
de Aderbal, que parte do estudo profundo
de certos procedimentos constantes na música
de João, para compreender como estes
procedimentos, em conjunto, criam uma “atmosfera
musical” única e característica.
Para a compreensão dos procedimentos
técnicos e estéticos na música
de João Gilberto, Aderbal utiliza-se
da análise, na sua conceituação
mais fundamental, ou seja, a separação
de um todo em partes.
Partindo da compreensão de certas
premissas técnicas fundamentais para
a formação da atual música
popular brasileira, Aderbal consegue identificar
alguns fundamentos técnicos e estéticos
presentes na música de João.
Estes fundamentos serão explicados
a seguir, lembrando que aqui não
é possível fugir do vocabulário
técnico. Tentarei, na medida do possível,
esclarecer estes conceitos para o entendimento
de “leigos” em música,
sabendo que necessariamente serei superficial
e redundante para os especialistas, e hermético
para o público em geral.
1. CONVIVÊNCIA DE TONALIDADE E MODALIDADE
A Música Popular Brasileira é
atualmente caracterizada por ser homofônica,
ou seja, é estruturada com base na
diferenciação entre melodia
e acompanhamento (linha melódica
e harmonia). “Melodia” pode
ser caracterizada como a apresentação
sucessiva de notas musicais, e “harmonia”
como a apresentação simultânea
destas notas, em blocos coerentes –
os acordes.
Os sons musicais tradicionais (as “notas”
musicais) são geralmente organizados
em sistemas diversos, característicos
de diferentes épocas e regiões.
Quando os primeiros europeus desembarcaram
na costa brasileira, trouxeram um sistema
musical denominado de modalismo. Este sistema
desenvolveu-se com a música monofônica
(linha melódica única sem
acompanhamento algum) e polifônica
contrapontística (diversas linhas
melódicas autônomas e simultâneas)
durante a Idade Média. Na Europa,
o modalismo modificou-se entre os séculos
XV e XVIII, transformando-se em um novo
sistema, o tonalismo, que permitiu a organização
coerente de blocos sucessivos de acordes.
O sistema tonal permitiu o estabelecimento
da homofonia.
No entanto, o modalismo sobreviveu em sua
forma original no Brasil, notadamente nas
linhas melódicas da região
nordeste. Para que a uma melodia modal possa
ser acompanhada homofonicamente por acordes,
o sistema tonal tem que sofrer modificações
em sua configuração original:
acordes de empréstimo modal são
uma adaptação surgida na Europa
ao final do século XIX, sendo uma
característica marcante do período
impressionista francês (Debussy, Ravel,
etc.), período que explorou bastante
o convívio do modalismo e do tonalismo.
A partir do início do século
XX, as melodias brasileiras com características
modais passam a ser acompanhadas de tais
acordes, porém de forma esporádica
e em configurações simples.
Uma mesma melodia pode ser “harmonizada”
por acordes diferentes, e tradicionalmente
os intérpretes da Música Popular
Brasileira ocupam-se em conferir harmonizações
próprias para as obras que executam.
Ou seja, a melodia é preferencialmente
reproduzida o mais “fielmente”
possível ao original, enquanto que
intérpretes diferentes conferem diferentes
harmonizações a uma mesma
melodia.
João Gilberto, em suas harmonizações
de melodias, explora este contraste de sistemas,
presente na música brasileira: não
somente passa a realçar características
modais em melodias de diferentes períodos
e regiões, como também desenvolve
um alto grau de refinamento na escolha dos
acordes utilizados nos acompanhamentos,
aplicando o que é denominado de tonalidade
expandida. Esta dualidade de sistemas da
música brasileira foi bastante explorada
por Tom Jobim que seguramente, já
no início da renovação
da MPB, notou esta característica
nas harmonizações de João.
2. “CONTRAÇÃO”
DO ÂMBITO SONORO NO REGISTRO MÉDIO
DO VIOLÃO
Até a década de 1950, o conjunto
instrumental básico, e quase onipresente,
para o acompanhamento de cantores e solistas
na Música Popular Brasileira era
o regional. Este conjunto apresenta funções
bastante especializadas para cada instrumento,
de acordo com o seu respectivo registro
sonoro. Em sua configuração
mais básica, o regional é
constituído de cavaquinho ou bandolim,
no registro agudo; de violão, no
registro médio; de violão
de sete cordas ou contrabaixo, no registro
grave; e de pandeiro na seção
rítmica.
João Gilberto vem “resumir”
as funções acompanhantes do
regional no uso que desenvolve para o violão
solo. João redimensiona todas as
funções do regional no registro
médio do violão, atribuindo
acordes específicos para cada registro,
utilizando-se de padrões rítmicos
característicos de cada um dos instrumentos
do regional como substituição
para amplitude de registros, além
de incorporar os padrões rítmicos
típicos da percussão (pandeiro)
na mão direita do violão (a
famosa “batida” de João).
3. PADRÕES RÍTMICOS DE ACOMPANHAMENTO
ENQUANTO ENTIDADE ESTÉTICA AUTÔNOMA
A seção rítmica tradicional
no acompanhamento da Música popular
Brasileira comporta-se de maneira autônoma,
tanto em relação à
melodia, quanto ao acompanhamento. A seção
rítmica (muitas vezes denominada
de “cozinha”) normalmente estabelece
um padrão, razoavelmente independente,
tanto da melodia, quanto da harmonia, prosseguindo
este padrão por toda a obra.
Ao “redimensionar” as funções
do regional em seu violão, João
Gilberto incorporou algumas funções
rítmicas do pandeiro (acentuações
diferenciadas), porém sem imitar
o seu som original. A “seção
rítmica” do violão de
João é constituída
de diversos padrões rítmicos,
a cada obra – não mais um padrão
básico constante. Os diferentes padrões
são utilizados em conjunção
com a harmonia, com o contorno e registro
da melodia, etc. Ou seja, a “batida”
de João não é uma “batida”,
são várias, aplicadas criteriosamente
para –através das mudanças
- realçar aspectos melódicos,
harmônicos e formais de cada obra.
Estas “batidas” têm suas
origens em alguns padrões tradicionais
da Música Popular Brasileira, como
o samba, o choro, o baião, o xote,
etc. João incorpora tudo.
Ao planejar criteriosamente as mudanças
de padrões rítmicos em função
de um resultado total, João Gilberto
confere à “seção
rítmica” a mesma importância
estética que tradicionalmente é
reservada às harmonizações,
orquestrações, e inflexões
melódicas na Música Popular
Brasileira. Este procedimento veio a se
firmar como um dos elementos mais característicos
da Música Popular Brasileira, após
o violão de João.
4. FRASEADO:
ANTECIPAÇÕES E
RETARDOS NA LINHA MELÓDICA
Qualquer pessoa que tenha tentado cantar
uma melodia junto com João Gilberto
deve ter percebido que isto não é
uma tarefa simples. Por vezes João
adianta, atrasa, parece que esta completamente
livre. Estas “flutuações”
na condução melódica
são um procedimento calculado por
João. O efeito por ele desejado (assim
ele afirma) é o de evitar a monotonia
através da surpresa. João
procura então seguir mais o ritmo
da linguagem falada, do que o ritmo exigido
originalmente pela melodia, daí as
“flutuações”.
Porém, para que estas “flutuações”
possam ser percebidas como tais, João
geralmente apresenta a melodia primeiramente
com a prosódia1 original.
João também explora ressonâncias
de certas sílabas em sua voz (mais
sobre isto adiante), e com isto demora-se
mais (ou menos) em certas sílabas,
alcançando então a sonoridade
por ele imaginada. Esta sonoridade também
é afetada pelos deslocamentos rítmicos
da melodia, quando as mudanças harmônicas
no acompanhamento não ocorrem simultaneamente
com as notas da melodia. Isto cria momentaneamente
acordes inicialmente “errados”,
e que “corrigem-se” quando a
melodia retorna a sua configuração
original. Este procedimento é também
intencional, e totalmente calculado por
João.
5. ESTRUTURA VERTICAL DE ACORDES CRIADA
EM FUNÇÃO DA MELODIA
Para que uma determinada harmonia do sistema
tonal possa ser caracterizada isoladamente
são necessárias ao menos três
notas em sua composição. Estas
estruturas harmônicas básicas
são denominadas de tríades,
e geralmente contêm poucas ou nenhuma
dissonância. Ao acrescentar-se a uma
tríade uma quarta nota original (sem
repetir nenhuma já presente), criar-se-á
necessariamente ao menos uma dissonância.
Estes acordes dissonantes são denominados
de tétrades.
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Foto
: Dario Zalis / CD João
Gilberto |
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A Música Popular Brasileira tradicionalmente
utilizava-se de tríades, para a harmonização
de melodias, e dissonâncias somente
ocorriam raramente. Já em meados
da década de 1930 as harmonizações
em tétrades (portanto mais dissonantes)
já tinham se firmado na música
norte-americana, especialmente no jazz.
Tais harmonizações começam
a ser aplicadas na Música Popular
Brasileira a partir do final da década
de 1930 (notadamente nos arranjos de Radamés
Gnatalli e Pixinguinha, que foram então
muito criticados por isto), para firmarem-se
definitivamente como parte constituinte
de obras brasileiras na década de
1950 com a Bossa Nova, e com João
Gilberto.
O uso freqüente de tétrades
é uma das características
da tonalidade expandida (c.f. seção
1. acima), que, como já mencionado,
resulta da convivência de modalidade
e tonalidade. João assume integralmente
este tipo de harmonização,
e mais ainda, o desenvolve com um alto grau
de refinamento. João estrutura as
tétradres de seus acompanhamentos
de forma a realçar o caráter
das dissonâncias que surgem entre
a melodia e os acordes que a acompanham,
variando estes também em suas inversões2.
João inverte acordes para explicitar
ou amenizar dissonâncias existentes
entre as notas da melodia e as do acompanhamento,
criando assim um interessante jogo de tensões
e relaxamentos. Além desta escolha
criteriosa de harmonias e inversões
(que também leva em consideração
se o acorde ou a melodia são executados
no registro grave, médio ou agudo),
a forma como cada acorde é executado
é detalhadamente trabalhada.
João realça através
de diferenças de volume sonoro entre
as diversas notas de cada acorde, as diferentes
vozes (ou contracantos) que surgem na condução
de diferentes acordes. Esta diferenciação
de volume também é um meio
de realçar as dissonâncias
e consonâncias que surgem entre a
melodia e o acompanhamento. Este efeito
somente é alcançado através
do alto grau de independência com
que os dedos da mão direita de João
executam o violão. Este é
um aspecto técnico altamente refinado,
e que é fundamental para as interpretações
de João.
6. TÉCNICA VOCAL
O tratamento que João Gilberto confere
a sua voz é um dos aspectos mais
característicos da sua música.
A sua voz e maneira de cantar foram objetos
de muitos comentários e polêmicas.
Quando as gravações de João
começaram a circular nacionalmente,
a cultura vocal na Música Popular
Brasileira baseava-se no volume e capacidade
de projeção sonora dos cantores,
uma técnica vocal bastante similar
a do canto lírico erudito. João
surge então com uma nova estética
vocal, onde o canto é totalmente
intimista, quase sussurrado. Isto somente
foi possível com o desenvolvimento
da tecnologia de gravação
e de amplificação mecânica,
porém abriu enormes possibilidades
para os intérpretes.
A estética vocal de João Gilberto
baseia-se primordialmente na adaptação
da música às capacidades vocais
naturais do interprete. João nunca
força sua voz (nem no que se refere
ao registro – grave ou agudo, nem
ao volume). Ele aproxima o máximo
possível o canto da voz falada –
diferentemente da voz “empostada”
do canto lírico. João mo-difica
as tonalidades originais das músicas
que interpreta para permitir a adaptação
ao seu registro vocal.
Deste modo, muito freqüentemente, as
músicas que ele interpreta são
transpostas para as tonalidades que são
bastante “incômodas” para
o acompanhamento ao violão (si e
si-bemol, por exemplo). Porém, na
concepção estética
de João, a adequação
ao registro vocal tem precedência
em relação à facilidade
violonística, forçando assim
o desenvolvimento de uma técnica
de acompanhamento instrumental apurada.
Cabe aqui uma ressalva importante: João
Gilberto não defende que o seu estilo
vocal é melhor que qualquer outro.
O que ele defende é que o intérprete
cante com a voz mais natural possível.
Se um determinado cantor fala com a voz
esganiçada, por exemplo, deve cantar
da mesma forma; se sua voz é grave,
deve cantar neste registro, e assim por
diante. O importante é respeitar
a voz cotidiana de cada um. João
canta com a voz que ele fala.
***
Todos estes aspectos técnicos e estéticos
são abordados simultaneamente nas
interpretações de João
Gilberto, criando um resultado sonoro complexo
e transparente, que tem um impacto estético
de enorme força e originalidade.
A arte interpretativa de João Gilberto
é um marco da nossa cultura nacional
– a sonoridade de João é
internacionalmente reconhecida como “brasileira”.
Contudo o seu estudo raramente tem sido
alvo de esforços sistemáticos
generalizados no Brasil – aliás,
uma deficiência crônica na Música
Popular Brasileira. As pesquisas e estudos
de Aderbal Duarte constituem portanto uma
exceção neste cenário,
e merecem atenção por parte
daqueles interessados na pesquisa sobre
a Música Popular Brasileira.
Aderbal sintetizou os acima delineados fundamentos
técnicos e estéticos na obra
de João ao decorrer de mais de vinte
anos de estudo e pesquisa, onde ele, através
de transcrições de gravações,
tentou mapear os elementos técnicos
utilizados por João Gilberto em sua
música. Estes elementos técnicos
são frutos de convicções
estéticas de João, e foram
por ele desenvolvidos metódica e
sistematicamente durante toda sua carreira.
João Gilberto é um estudioso
inveterado, passando boa parte da vida a
estudar e criar ao violão.
A dedicação e os resultados
alcançados por Aderbal chegaram ao
conhecimento de João Gilberto, que
o convidou para uma colaboração
próxima. Contando com o apoio direto
de João Gilberto, Aderbal Duarte
e a historiadora e escritora Edinha Diniz
criaram em 2003 o Centro de Estudos João
Gilberto, uma iniciativa dedicada a estudar
e cultivar a criação e a vida
de João. Formalizado enquanto instituição
legal no ano de 2004 o Centro de Estudos
João Gilberto desenvolve atualmente,
através de Aderbal, o projeto A Escritura
da Bossa. Este projeto visa a descrição
detalhada das interpretações
de João Gilberto, dirimindo dúvidas
e incorreções musicais surgidas
sobre a música de João ao
decorrer de sua carreira.
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Foto
: Dario Zalis / CD João
Gilberto |
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A Escritura da Bossa é um projeto
de longo prazo, que em cinco ou seis anos
irá publicar a transcrição
da integral das gravações
de João Gilberto, com mais de 200
interpretações. Numa primeira
fase este projeto irá se ocupar de
10 gravações, que serão
transcritas e publicadas até 2006.
Posteriormente pretende-se formar uma equipe
de trabalho, que viabilize a transcrição
e publicação integral de todas
outras as interpretações de
João, uma tarefa gigantesca –
somente de Desafinado serão transcritas
sete versões diferentes! –
que será realizada sob a iniciativa,
e com a participação direta
de João Gilberto.
As transcrições conterão,
além das informações
sobre as gravações originais,
a transcrição detalhada da
melodia, dos padrões rítmicos
utilizados e das harmonias, apresentando-se
em uma partitura com três sistemas
- ou linhas (melodia e texto, ritmo e harmonização).
Esta iniciativa garantirá o registro
e divulgação desta obra, assegurando
através do controle direto do autor,
o alto grau de qualidade pelo qual este
sempre primou. A Escritura da Bossa é
uma iniciativa original para a Música
Popular Brasileira, pois adotará
critérios rigorosos e uniformes para
a transcrição e publicação
do material, além de contar com a
supervisão direta de João
Gilberto, em todas as etapas do projeto.
Desta forma esta importante parcela do patrimônio
artístico nacional será abordada
de forma séria e conseqüente,
condizente com a sua importância para
a nossa cultura.
Como decorrência direta da Escritura
da Bossa, Aderbal também iniciou
um outro projeto, que desenvolveu materiais
didáticos, baseados nas técnicas
de estudo criadas e adotadas por João
Gilberto. Este projeto “isola”,
em exercícios e estudos, diversos
elementos técnicos e estéticos,
os quais recebem uma atenção
especial por parte de João em sua
música. Deste projeto didático
resultarão a publicação
de partituras e CDs didáticos.
***
As publicações e materiais
didáticos resultantes dos estudos
e pesquisas de Aderbal Duarte seguramente
proporcionarão não somente
o advento de pesquisas futuras sobre João
Gilberto e sua obra, mas poderão
também servir de modelo para a abordagem
sistemática das criações
da Música Popular Brasileira.
Aderbal não se preocupa somente em
registrar e divulgar o que João Giberto
cria. Ele também incorpora em suas
atividades musicais próprias muito
do que João Gilberto preconiza e
pratica, desta forma demonstrando na prática
as conseqüências possíveis
de tais projetos para o futuro da Música
Popular Brasileira.
ADERBAL DUARTE – é graduado
em Composição e Regência
pela Escola de Música da Universidade
Federal da Bahia. Professor e pesquisador,
atualmente dá aulas na Universidade
Católica do Salvador e é responsável
pelo Núcleo de Música do Centro
de Estudos João Gilberto, no Rio
de Janeiro. Em 2003 recebeu o Prêmio
Braskem Cultura e Arte.
LUCAS ROBATTO – doutor em flauta
pela Universidade de Washington (EUA), com
graduação e mestrado na Escola
Estatal Superior de Música de Karlsruhe
(Alemanha). Professor adjunto da Escola
de Música da Universidade Federal
da Bahia e flautista principal da Orquestra
Sinfônica da Bahia. Em paralelo às
suas atividades artísticas e didáticas,
desenvolve pesquisas na área de musicologia
histórica.
Notas
1 O procedimento de adaptar um texto a
uma melodia, e vice-versa.
2 Reestruturação de um acorde,
trocando a ordem das notas verticalmente,
ou seja, “deslocando” uma nota
mais aguda para a posição
mais grave do acorde, e vice-versa.
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