OS
PRIMÓRDIOS DO TEATRO SÃO JOÃO
DESTA CIDADE DA BAHIA
LUCAS
ROBATTO, CLARA COSTA RODRIGUES,
MARCOS DA SILVA SAMPAIO
Os primeiros
registros de atividades teatrais na Cidade
da Bahia datam do início da colonização
portuguesa, quando autos religiosos e representações
sacras serviam como instrumento de catequese.
Porém não é muito divulgado
o fato desta cidade possuir uma
longa história de estabelecimentos
teatrais. O historiador baiano Affonso Ruy
fornece o ano de 1734 como o da interdição
do Teatro da Câmara, que funcionando
no prédio do Senado e Câmara,
é o primeiro registro de um tal estabelecimento
na Bahia. Ruy também aponta a existência
do Teatro da Praia - durante a década
de 1760; e o Teatro da Guadalupe - na transição
entre os séculos XVIII e XIX (RUY,
1967, p. 109-171). Porém, nenhum
destes estabelecimentos se igualou ao Teatro
São João em termos de impacto
e importância social, cultural ou
histórica para a Bahia.
O Teatro São João foi o palco
principal da representação
dos valores culturais, estéticos
e políticos da elite baiana durante
todo o século XIX e início
do XX, sendo testemunha e agente das mudanças
que ocorreram nesta sociedade, em um período
decisivo para a consolidação
do Brasil enquanto nação independente.
A importância sociocultural deste
teatro é evidenciada ao considerarmos
que durante este
período o modelo centralizador da
colonização lusitana provocou
restrições substanciais na
vida dos habitantes das colônias americanas,
que foram privados de instituições
de ensino superior, de imprensa, além
de somente disporem de um precaríssimo
sistema de educação fundamental
e estarem submetidos a condições
restritivas no referente à circulação
de bens culturais.
Em tal universo cultural, a Igreja passa
a ocupar um lugar fundamental, servindo
à elite colonial enquanto única
possibilidade de educação,
como promotora e divulgadora de produções
artísticas, e de centro de convivência
social. A criação de um estabelecimento
teatral de caráter profano em uma
cidade colonial, sinaliza uma mudança
de atitude de uma
sociedade, não somente em relação
às artes, mas também em relação
às formas de convívio.
Recentemente foram encontrados no Arquivo
Público do Estado da Bahia1, documentos
inéditos referentes à criação
e aos primeiros anos de funcionamento do
Teatro São João (1806-1830).
Esse material é ponto de partida
da presente pesquisa conduzida pelo prof.
Dr. Lucas Robatto e auxiliada pelos estudantes
Marcos Sampaio e Clara Rodrigues (bolsistas
do programa PIBIC, UFBa/ CNPQ). Esta pesquisa
tem como objetivo mais amplo lançar
um olhar sobre os habitantes da Bahia do
início do século XIX através
do prisma do Teatro São João,
isto é, partindo das informações
fatuais alcançadas, delinear aspectos
da sociedade da Cidade da Bahia, englobando
tanto os profissionais deste teatro e suas
atividades, como também os seus idealizadores,
mantenedores e freqüentadores.
O Prédio
O Teatro São João funcionou
entre 1812 e 1922 onde hoje é a praça
Castro Alves, mais precisamente onde fica
o antigo “Palácio dos Esportes”.
O prédio do teatro localizava–se
na extremidade norte do que então
era “o largo das portas de São
Bento”. Sua entrada era voltada para
o sul, em frente a uma ampla praça.
Um de seus lados flanqueava a encosta, tendo
varandas voltadas ao mar. Seu outro lado
acompanhava o que hoje é a rua Chile.
Este teatro ficava no centro da cidade,
tanto no sentido urbanístico, quanto
no social.
Poucas são as informações
sobre a parte interna do teatro. Não
sabemos exatamente quais as suas dimensões,
porém, sabemos que o espaço
era dividido em platéia geral, camarotes,
varandas, e torrinhas. Os camarotes, os
locais mais caros do teatro, eram vendidos
por um preço quase seis vezes maior
que um posto nas varandas – local
mais barato. Esse fato reflete a estrutura
altamente hierarquizada da sociedade de
então: apesar de ser freqüentado
por membros de todos os estratos sociais,
esse teatro foi construído de modo
que as pessoas de diferentes camadas sociais
não transitassem pelos mesmos lugares.
Exemplo disso é construção
de uma entrada independente para o público
das torrinhas e varandas (BOCCANERA JUNIOR,
1915, p. 58).
Os dados atualmente disponíveis na
documentação sobre os primórdios
do Teatro São João
permitem uma estimativa do número
de lugares existentes no Teatro São
João como de, pelo menos, 800 lugares2.
Devemos levar em consideração
o significado desse número de lugares,
pois Salvador era, nesse tempo, uma cidade
com uma população em torno
de cem mil habitantes.
A Criação
A criação de um teatro deste
porte na Bahia reflete uma mudança
de mentalidade entre membros da elite da
sociedade colonial da Bahia, mudança
decorrente da adoção de certas
correntes de pensamento iluminista presentes
nas iniciativas do governo Pombalino em
Portugal (1750-1777), e que somente mais
tarde alcançam a colônia. Alguns
aspectos destas correntes passam a nortear
a consolidação de ideais burgueses
na elite colonial, que utilizava-se do conteúdo
simbólico das manifestações
artísticas seculares como forma de
auto-afirmação. A criação
deste teatro já em 1806, quando não
era cogitada a transferência
da corte portuguesa para o Brasil, aponta
para a existência de uma “política
cultural” mais cosmopolita por parte
do governo local.

A criação do Teatro São
João segue o modelo adotado em Lisboa
em 1771 pelo Marquês de
Pombal para o subsídio dos teatros
públicos. Neste modelo iluminista,
a justificativa para existência de
teatros públicos (faça–se
aqui a diferença ao teatro da corte,
de acesso restrito exclusivamente a nobreza)
deve–se ao:
esplendor
e utilidade, que resulta a todas as
nações do estabelecimento
dos teatros públicos,
por serem estes, quando bem regulados,
escola, onde os povos aprendem as máximas
sãs da política, da moral,
do amor da pátria,
do valor, do zelo, da fidelidade, com que
devem
servir os seus soberanos: civilizando–se
e desterrando insensivelmente alguns restos
de
barbárie, que neles deixarão
os séculos infelizes
da ignorância (BENEVIDES, 1883, p.
12
e 13).
A necessidade
da criação de um teatro na
Cidade do Salvador surgiu durante o governo
do
Conde da Ponte (1805-1810). O registro de
portaria, documento inédito datado
de 21 de agosto de 1806 apresenta a justificativa
para a criação deste teatro,
a sua organização financeira
e administrativa original, assim como o
pessoal nomeado para o seu estabelecimento.
Esta portaria evidencia a ideologia que
direcionou a criação de um
tal estabelecimento numa colônia rica
e influente:
Reconhecendo
ser o espetaculo theatral o entretenim.to
geralme adoptado pelas Naçoens
Civilisadas pa distrahir, e entreter a mocidade
de huma populosa cidade n’aquellas
horas, em que o Ocio parece convidalla a
precipitar se em vicios perniciosos, alem
do beneficio incalculavel de habitualla
a viver no centro dos mais individuos da
sociedade, habito, q. insensivel e expontaneam.te
contrahido se torna um freio quase invensivel
a aperfeiçoar a lingoagem pela in[ilegível]abilidade,
e condescendencia de um revisor na approvação
e
reprovação das pessas, q.
lhe forem a censurar…
Um membro da nobreza metropolitana –
o governador – decide implementar
uma instituição
civilizadora, que atua como escola de convívio
para os habitantes da terra; uma instituição
que educa tanto enquanto local de encontro
para os “mais inconter o homem mais
relaxado,
inspirando lhe o amor a estimação
de seos iguaes, e o brioso receio de ser
por elles despresado, utilidades inseparaveis
d’este espetaculo ainda quando pela
sua má direção, e tolerada
relapação [relapsão?]
não produsisse a correção
dos proprios defeitos pela sensivel, e tocante
maneira, com q. devem apparecer reprehendidos,
e castigados, nem se conseguisse divíduos
da sociedade,” como também
pelas noções de moralidade
que eventualmente as obras artísticas
ali representadas possam inculcar nos espectadores
- moralidades devidamente controladas pelas
autoridades através da censura.

Apesar da inequívoca
autoridade do governo sobre esta empresa,
a sua organização administrativa
e financeira seria o que entenderíamos
hoje por uma iniciativa privada: o governo
organizaria, daria o seu aval, fiscalizaria
e facilitaria o funcionamento de tais empresas.
“Homens de negócio”,
acionistas, por sua vez, criariam uma sociedade
de cotas
(ou ações), muito semelhante
às sociedades anônimas atuais.
Estes acionistas comprariam ações
– que variavam entre 200$000 e 1.000$000
- podendo optar por reaver o capital empregado
com juros acrescidos de 7%, ou tornarem-se
proprietários, compartilhando assim
os eventuais lucros da empresa.
O corpo administrativo-financeiro
do teatro era composto por um administrador,
responsável
pela contabilização e fiscalização
dos fundos empregados para a construção
do edifício, e para o funcionamento
da empresa teatral; um tesoureiro, responsável
pela captação de fundos, além
de “Recebedor, e Depositário”
de qualquer dinheiro captado via acionistas,
ou via lucro da empresa; e um diretor, responsável
pela parte artística da empresa,
cabendo a ele escolher e contratar todo
os artistas, assim como material cênico
e de decoração do edifício.
O governador
em pessoa exercia o papel de “protetor”
e “autoridade” superior sobre
a administração do teatro,
sendo responsável pela nomeação
desta, e aprovação quando
da contratação do restante
do pessoal administrativo e resolução
final de qualquer impasse administrativo.
Durante todo o período estudado pelo
presente trabalho, não foi possível
encontrar qualquer evidência da utilização
de fundos pecuniários do governo
na construção e
empresa do teatro, tendo a administração
deste sempre procurado honrar suas dividas
pecuniárias para com organismos do
estado - desde a compra do terreno e materiais
de construção, até
a remuneração de funcionários
públicos a serviço do teatro.

No ano de 1809, a recente chegada da corte
portuguesa - que muda-se para o Brasil,
fugindo da invasão napoleônica
da península ibérica - muda
o foco das atenções da elite
baiana para o Rio de Janeiro, sede da nova
corte. As iniciativas de modernização
iniciadas na Bahia que contavam com o apoio
financeiro da elite local, passam a sofrer
a competição de iniciativas
similares no Rio de Janeiro - a exemplo
das loterias em favor do Teatro São
João do Rio de Janeiro, que passam
a ser anunciadas no jornal baiano A Idade
d’Ouro.3
Neste período ficou claro que os
recursos advindos da venda de cotas para
acionistas não
poderiam cobrir os gastos, pois somente
poucos acionistas honraram integralmente
o seu compromisso. Tendo em vista esta situação,
a administração do teatro
requer ao governo interino a criação
de loterias, cujo rendimento seria revertido
em favor do Teatro São João.
A Carta Régia de 27 de janeiro de
1809 concede uma loteria para este fim específico
pelo período de seis anos. A implementação
desta loteria ocorreu de modo problemático,
e somente em janeiro de 1811, agora com
o decidido apoio do novo governador, o Conde
dos Arcos (1810-1818), pôde o Teatro
São João receber os dividendos
da primeira extração.
O Conde dos Arcos é conhecido na
historiografia da Bahia como “Tirano
Iluminista,”4 por
ser responsável tanto pela prontidão
e rigor com que sufocou revoltas, quanto
por uma série de obras públicas
que foram criadas sob seus auspícios
- tais como a Biblioteca Pública,
a Faculdade de Medicina, a Associação
Comercial, e o Passeio Público (TAVARES,
2001, p. 215 – 125). Seu apoio ao
Teatro São João foi decisivo
tanto para viabilizar a extração
das loterias, como para a captação
dos recursos prometidos pelo acionistas.
Artistas e Apresentações
A natureza
da documentação não
permite uma abordagem direta às atividades
artísticas realizadas no teatro,
pois contém basicamente informações
administrativas e financeiras. Ainda assim
pudemos disponibilizar uma lista de artistas
e técnicos cênicos com mais
que cinqüenta nomes, uma lista dos
mantenedores deste teatro, assim como uma
lista do repertório apresentado ou
disponível no Teatro São João
durante o período estudado.
Já na sua primeira temporada (1812-1813),
o Teatro São João empregava
em sua folha de pagamento uma companhia
portuguesa de artistas com ao menos 16 artistas
(cômicos, damas, galã, gracioso,
comparses e agentes), sob a direção
do Cômico João da Graça,
além de vários técnicos
cênicos (fiel, ponto, alfaiate, pintor,
etc.). A música era dirigida pelo
mestre da muzica Antônio Joaquim de
Moraes, que além de organizar uma
orquestra de ao menos 16
músicos - que se apresentaram ao
menos 50 vezes nesta temporada - ainda era
responsável pela preparação
dos cantores italianos (Giovanni Oliveto,
Roza Fiorini e Michelle Vacanni), contratação
de músicos extras (músicos
de corporações militares),
além de ser responsável por
atividades técnicas tais como a manutenção
e afinação de instrumentos,
a compra de papel de música e a cópia
de partituras.
Um outro aspecto interessante desta primeira
temporada é constatação
de diversas apresentações
de bailados e dansas, para tanto contando
com ao menos com 2 dançarinas contratadas:
a italiana Anna Carnevali e a espanhola
Roza Vicentini. Além de empregarem
diversos dançarinos extras, as danças
apresentavam o inusitado fato de muito freqüentemente
contarem com a participação
de membros de corporações
militares em cena!
O atual estágio da pesquisa que originou
este trabalho não permite ainda nenhuma
conclusão
mais detalhada sobre aspectos do repertório
executado no Teatro São João
da Bahia durante o período em questão.
O caráter da documentação
já analisada somente aborda o repertório
de forma bastante indireta, e são
poucas as referências secundárias
que explicitam obras específicas.
Mesmo assim podemos constatar 16 títulos,
entre comedias, dramas, peças, bailados
e entremezes, sem contudo nenhuma indicação
positiva de autor.
As informações
levantadas sobre esta primeira temporada
ainda permitem constatar que entre
13 de maio de 1812 e 3 de março de
1813 – período entre o fim
da quaresma e o carnaval, similar às
temporadas dos teatros europeus da época
- foram feitas 73 apresentações,
que aconteciam semanalmente, em geral aos
domingos (40 apresentações).
As maiores bilheterias normalmente coincidiam
com dias de importância simbólica
e política para a comunidade freqüentadora
(aniversários da família real).
O fato destas datas simbólicas serem
dias de freqüência concorrida
é uma demonstração
da importância da celebração
dos símbolos que hoje denominaríamos
“cívicos” pela elite
desta sociedade, assim como a constatação
de que o teatro tornava-se um palco onde
uma sociedade podia representar-se.
Coda
A pesquisa que originou este o presente
trabalho já pôde concluir algumas
etapas importantes, especialmente no que
se refere ao levantamento e catalogação
de informações contidas nos
já referidos documentos originais
encontrados no Arquivo Público do
Estado da Bahia. Com isto esta pesquisa
pretende criar subsídios para interações
mais sólidas da musicologia histórica
com outras áreas de conhecimento,
tais como história, sociologia, teatro,
dança, arquitetura, etc. Pretendemos
assim servir de estímulo a pesquisadores
e curiosos sobre a história das artes
na Bahia.
LUCAS ROBATTO Doutor em
flauta pela Universidade de Washington (EUA),
com graduação e mestrado na
Escola Estatal de Música de Karlsruhe
(Alemanha). Professor Adjunto da Escola
de Música da UFBa e Flautista Principal
da Orquestra Sinfônica da Bahia. Em
paralelo às suas atividades artísticas
e didáticas, desenvolve pesquisas
na área de musicologia histórica.
CLARA
COSTA RODRIGUES Graduanda em Instrumento
pela Universidade Federal da Bahia. É
primeira flautista da banda sinfônica
da UFBA e está envolvida na área
de Musicologia Histórica, participando
da pesquisa sobre o Teatro São João
com bolsa do CNPQ.
MARCOS DA SILVA SAMPAIO
Graduando em Composição pela
Universidade Federal da Bahia, vem trabalhando
com música instrumental. Está
envolvido nas áreas de Etnomusicologia
e de Musicologia Histórica, participando
da pesquisa sobre o Teatro São João
com bolsa do CNPQ.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
BENEVIDES, Francisco da Fonseca. O Real
Theatro de S. Carlos de Lisboa desde a sua
fundação em 1793 até
á actualidade: estudo historico.
Lisboa: Typ. C. Irmão, 1883.
BOCCANERA JUNIOR, Sílio. O theatro
na Bahia: livro do centenário (1812–1912).
Bahia: Officina do “Diario da Bahia”,
1915.
________. O theatro na Bahia: da côlonia
à república (1800-1923). Bahia:
Imprensa Official do Estado, 1924.
NEVES, Maria Helena Franca. De la traviata
ao maxixe: variações estéticas
da prática do teatro São João.
Salvador: SCT/FUNCEB/EGBA, 2000.
QUERINO, Manuel Raymundo. Os teatros na
Bahia. Revista do Instituto Geográfico
e Histórico da Bahia, Salvador, vol.
16, n. 35, 1909.
RUY, Affonso. História do teatro
na Bahia: séculos XVI-XX. Salvador:
Universidade da Bahia, 1959.
________. O teatro na Bahia. In: _______.
História das artes na Cidade do Salvador.
Salvador: Prefeitura Municipal do Salvador,
1967, p. 109-171.
TAVARES, Luís Henrique Dias. História
da Bahia. 10. ed. Salvador: Edufba; São
Paulo: Unesp, 2001.
VERGER, Pierre. Notícias da Bahia
- 1850. Salvador: Currupio, 1981.
NOTAS
1 Arquivo Público do Estado da Bahia,
Seção Colonial, maços
617 a 624.
2 Em 1818 Tollenare (apud.VERGER, 1981,
p. 196) estima a lotação deste
teatro em 2000 lugares.
3 A exemplo da edição de 29
de maio de 1812.
4 Este é o título do suplemento
especial de domingo dedicado ao Conde dos
Arcos de autoria de Andreia Santana, publicado
no Correio da Bahia (Salvador), 31 de março
de 2002.
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