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03/09/2019 17:20

#PPV - Documentarista vencedora do Prêmio retrata em sua obra a luta de povos tradicionais contra as políticas de extinção

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“As histórias não cessam depois das publicações, é por amar narrativas que eu as documento”, diz a maranhense Ana Mendes, documentarista vencedora no Prêmio Nacional de Fotografia Pierre Verger, uma realização da Fundação Cultural do Estado da Bahia (Funceb). “Eu sou apaixonada por histórias, histórias por trás das imagens, e a finalidade de estar com a câmera em mãos é não deixá-las silenciadas e extintas”, se apresenta a documentarista.

Fruto das vivências com povos originários surge o ensaio “Pseudo Indígenas”, que retrata a realidade de dois povos: o Akroá Gamella (Maranhão) e o Guarani Kaiowá (Mato Grosso do Sul). O primeiro foi considerado extinto pelo Estado Brasileiro, mas insurgiu em 2014. Já o segundo, com maior população fora da Amazônia (quase 60 mil pessoas), luta pelo direito a demarcação de terras tradicionais frente às estruturas racistas que põe em xeque sua legitimidade com expressões como “supostos índios”, que nomeia a proposta de Ana. 

A partir das imagens registradas, a documentarista busca retornar aos grupos para praticar o que ela chama de fotografia compartilhada, que aprendeu com seu mestre e amigo João Roberto Ripper. “Nosso esforço é retornar a essas comunidades para compartilhar as fotos a fim de que as pessoas encontrem a melhor imagem que as representem. Lembro de um momento bonito do Ripper entregando a uma criança de 9 anos uma imagem que ele fez quando o menino tinha 3 anos”, descreve.

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Sem perder o viés político e fortemente denunciativo, a obra resguarda também políticas do bem viver. “Para mim, uma das maiores contribuições que o projeto tem é a garantia de histórias documentadas. O material é tanto um acervo para pesquisas de entidades e organizações, como uma garantia em atos jurídicos que põe em xeque a existência destes grupos”, aponta. Frente aos discursos de ódio, Ana passou a escrever com carvão, nanquim e tinta expressões do que chama “política anti-indígena”.   

Prêmio que consagra a luta

“Vivo num limbo de críticas que versam sobre certa parcialidade de meus registros”, conta Ana. A voz doce de Ana revela também sua infância criada às margens do Rio Madeira, conhecido por não demonstrar sua profundidade e a força da correnteza, que bem ilustram a luta encampada da documentarista pró-demarcação de terras tradicionais. “Vemos veículos grandiosos e de credibilidade assumindo posições, ainda que subliminarmente, por que eu deveria ser imparcial?”, reflete.

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Filha de mãe solo e jornalista, Ana lembra das jornadas de ir às cobertura jornalísticas com a mãe. Foi aos 18 anos que com a ausência de um fotojornalista, numa pauta no sertão de Minas Gerais, que a mãe de Ana deu o primeiro pontapé na carreira da filha. “Foi ali mesmo no campo que ela me deu uns toques sobre fotômetro, diafragma e enquadramento e assim eu assinei minha primeira foto no Correio Braziliense”, destaca Ana.

DHoje aos 34 anos, Ana diz estar mais confortável com as escolhas da carreira que fez. “Tive uma trajetória com produção de imagens para muitos veículos jornalísticos e me especializei na área ao passo que me graduava e me tornei mestra em ciências sociais. Meus pares não recebiam bem o meu fazer multidisciplinar, mas, hoje eu me sinto bem ao me entender como documentarista que tem um trabalho focado em povos tradicionais”, ressalta.

Vencedora na Categoria 2 - Fotografia Documental, Ana se sente feliz por estar acompanhada da credibilidade do Prêmio. “Não tenho palavras para mensurar a satisfação de fazer parte do Prêmio, uma vez que meu trabalho é um exercício político, não se trata de um assunto da moda, mas de povos que neste momento enfrentam ações tão profundas”, afirma.
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