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07/10/2019 09:23

#FuncebEntrevista – Vencedor do Prêmio Leya, escritor baiano Itamar Vieira Júnior fala da obra premiada e de suas referências

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(Foto: Divulgação)

O universo rural do Brasil, servidão e exploração do trabalho humano são retratados no romance Torto Arado, obra do escritor baiano Itamar Vieira Júnior, vencedora da 10ª edição do Prêmio Leya, maior prêmio literário para romances inéditos de todo o mundo de língua portuguesa com premiação no valor de 100 mil euros.

Durante a premiação concorreram 348 originais provenientes de 13 países, dos quais foram selecionadas sete obras para a decisão final. Portugal e Brasil são os países de onde veio a maioria dos originais avaliados, tendo chegado obras de países tão diversos como Espanha, França, Inglaterra, Alemanha, Estados Unidos, China, Islândia, entre outros.

Natural de Salvador, Itamar revela que a obra vencedora começou a ser escrita aos dezesseis anos. Além desta, Itamar é autor da coletânea de contos “A oração do carrasco” (2017), finalista do Prêmio Jabuti de Literatura, além de ter contos traduzidos e publicados em revistas especializadas na França e EUA.

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Itamar Vieira Júnior (Foto: Divulgação)


Funceb - Como surgiu a ideia de escrever um romance como o Torto Arado, tão brasileiro e ao mesmo tempo universal? Houve algum fato ou vivência que tenha te inspirado ou levado  você para esse  caminho?
Itamar Vieira Júnior - A história de Torto arado remonta a minha adolescência e surgiu com as leituras inspiradas que fiz das grandes obras regionalistas brasileiras: Vidas secas, Morte e vida Severina, Terras do sem-fim, Grande sertão: veredas. Comecei escrever a história aos 16 anos, mas não tinha a maturidade necessária para prosseguir.
Anos mais tarde, eu que nasci e cresci na cidade, fui trabalhar no campo como servidor público. Tive longo contato com a vida do trabalhador rural. Depois cursei doutorado na área de Ciências Humanas, sempre tendo como pesquisa a vida dos camponeses. A vontade de escrever o romance ressurgiu muito forte e eu pude realizá-lo em meio às minhas experiências profissionais.

Funceb - O que é o romance Torto Arado?
IVJ - Torto arado é um romance de formação que conta a história de duas irmãs, da infância à maturidade, desde o acidente que mergulha uma delas no mutismo – e que por isso termina por aproximar os laços entre elas – até a luta pela terra encampada por trabalhadores que vivem em regime de servidão. É uma história que nos lembra que o passado nunca nos abandona se não nos dispormos a enfrentá-lo. A servidão, tema da obra, é tributária do sistema escravagista que não enfrentamos de maneira assertiva e que persiste na perpetuação da exploração do trabalho humano em nosso país.

Funceb - Que avaliação você faz de tão importante premiação para sua carreira de escritor?
IVJ - O Prêmio LeYa, sem dúvidas, deu-me importante projeção se considerarmos o alcance - por ter atravessado as fronteiras do Brasil –  de público e crítica que a obra está conseguindo ter. É um prêmio conhecido na comunidade de língua portuguesa e um dos maiores em valor monetário do mundo.

Funceb – O que significa para você receber esse Prêmio por unanimidade do júri?

IVJ - O fato de ter sido atribuído por unanimidade foi uma grande surpresa, já que é um júri internacional, com especialistas de Portugal, Brasil, Angola e Moçambique, dentre eles um Prêmio Camões, o poeta Manuel Alegre. Surpresa ainda porque é um tema muito brasileiro, voltado para as nossas mazelas sociais, uma história que se passa no interior da Bahia. Mas já li entrevistas da editora do romance, Maria do Rosário Pedreira, onde afirma que a obra contém elementos universais e por isso a aceitação pelo júri, público e crítica.

Funceb – Quais autores te inspiram mais, ou que você lê, quais as suas preferências?
IVJ - São muitos autores, corro o risco de esquecer se me dispuser a contar, mas vamos lá. Dos nacionais que ajudaram a formar o Itamar escritor: Jorge Amado, Érico Veríssimo, Machado de Assis, Raduan Nassar e Clarice Lispector. Dos estrangeiros: Toni Morrison, Eça de Queirós, Faulkner e J. M. Coetzee.

Funceb – Em 2017, você foi selecionado para participar do projeto Escritas em Trânsito, promovido pela Funceb, nas edições com as escritoras Alice Ruiz e Natalia Polesso. Que impressões você guarda dessas duas experiências?

IVJ - As oficinas de escrita são excelentes espaços para discussão e amadurecimento de um projeto literário. É um intercâmbio de saberes com autores de diversas origens. Eu participei do Projeto Escritas em Trânsito e de outras oficinas com autores que admiro. A avaliação que faço é de que me ajudaram a amadurecer meu projeto literário. As oficinas não nos ensinam a escrever, mas permite-nos olhar criticamente para o nosso próprio trabalho, já que aprendemos a editar e aperfeiçoar o texto literário.
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