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30/09/2021 19:00

#PPV Arlete Soares & Pierre Verger – uma história de dedicação e homenagens

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Dentre as ações da 8ª edição do Prêmio Nacional de Fotografia Pierre Verger, realizado pela Funceb, homenagens serão feitas a figuras marcantes na trajetória do fotógrafo francês que viveu grande parte da sua vida na cidade de Salvador. Uma delas é a fotógrafa e editora, Arlete Soares.

Baiana de Valença, aquariana e filha de Iemanjá, Arlete Soares se mudou para Salvador ainda criança e formou-se em Pedagogia. Foi secretária geral do Teatro Castro Alves e assumiu sua direção por algum tempo, deixando o Brasil durante o regime militar. Em Paris foi onde começou a fotografar em 1969, em meio à contracultura, a convite de seu amigo Sebastião Salgado. Sua história com Pierre Verger viria a se tornar realidade logo mais.

Arlete conheceu Pierre Verger em 1968, através de uma leitura indicada pelo seu orientador, Roger Bastide, como complemento para o doutorado que cursava em Paris. Voltando da África, Verger foi convidado a um café com Arlete e o escritor baiano, Jorge Amado, nascendo daí uma ligação que daria importantes frutos mais tarde.
 
A ligação começa em 1972, quando Arlete retorna à Bahia e cria o ZAZ - um espaço dedicado à fotografia. Verger, que vivia na ponte Bahia - Nigéria passa a frequentar o espaço, levando filmes para copiar no laboratório. Ali o fotógrafo se envolveu com a equipe formada por Cida Nóbrega, Eneas Guerra e Arnaldo Grebler. Mas, em 1975, Arlete faz uma viagem para o Oriente e fechou o ZAZ.
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Foi nesta viagem, em 1976 que, após visitar Pierre Verger na Nigéria, eles se tornam mais íntimos, possibilitando que ele mostrasse seus livros de fotografias. ‘Verger era extremamente sedutor. Ele nos levou às casas dos retornados, aos mercados, às aldeias e a todos os redutos de Orixá. A gente foi tomando conhecimento da grandeza da coisa. Minha admiração por sua obra e por ele como pessoa aumentavam”, comenta Arlete.

Nessa relação, Pierre Verger, em uma das conversas, relatou a Arlete que seu acervo estava na casa de seu antigo laboratorista em Paris, e ele temia pelo estado dos negativos. Prontamente ela disse, “olhe Verger, se você me der autorização, quando eu voltar da Índia, pego esse material e despacho para Salvador. E fiz ainda uma outra promessa: procurar uma editora no Brasil para publicar Fluxo e refluxo”. Livro que foi relançado em 2021 pela Companhia das Letras.

Em 1979, Arlete estava de volta a Salvador. Entre as correspondências em sua casa estava uma carta de Verger que dizia: “Estou voltando de-fi-ni-ti-va--men-te para a Bahia”. Era chegada a hora de Arlete cumprir as promessas.
 
“Eu vinha do Oriente com toda aquela cultura de reverência aos velhos, aos sábios. Então trouxemos os negativos para o Brasil e tratamos de buscar meios de publicar Fluxo e refluxo. Mas, traduzir um livro de quase 800 páginas era demorado. E a fotografia era o centro da minha atenção. Então sugeri fazermos um livro com fotografias da Bahia, enquanto providenciávamos a produção de Fluxo e refluxo”, lembra.
 
Para fazer o que veio a ser “Retratos da Bahia” - primeira publicação de Verger que ela produziria no Brasil -, ela chamou de volta Arnaldo e Enéas. Arlete lembra: “quando Verger começa a puxar aqueles pacotes de fotos, aqueles contatos 6x6, ela via a Bahia da sua infância, do tempo do seu pai”. Ali estava a fotógrafa reconhecendo pessoas que conheceu e lugares que frequentou, como a feira de Água de Meninos, a festa de Santo Antônio e o terreiro de Mãe Senhora.
 
“Aquilo foi um impacto muito forte. O manuseio dessas fotos era um deslumbramento. Eu venho de uma família do povo, minha mãe assinava com a digital, meu pai tinha uma barraca de coco na feira de Água de Meninos. Então, era uma Bahia assim, de pedir bênção aos mais velhos. Ver tudo aquilo em imagens foi o rasgo de uma paixão fulminante”, rememora.
 
Arlete foi pra São Paulo e apresentou a obra a vários editores. “Depois fui pro Rio e nada, ninguém se interessou pelo livro”, conta. Ela diz que “levava cartas de recomendação de Jorge Amado e Carybé, mas tudo em vão”. A negação trouxe para Arlete a ideia de criar uma editora: a editora Corrupio (nome da rua onde Verger morava), que publicaria sua obra. O livro foi lançado com 256 fotos, três mil exemplares de capa de tecido costurado a mão, o que foi um tremendo sucesso. No dia seguinte ao lançamento, Verger sugeriu a publicação de “Orixás”, seu próximo livro com a editora.
 
“O nosso encontro foi importante para nós da Corrupio e para Verger. Criamos uma editora para publicar sua obra que até então era inédita no Brasil, e para Verger, que já estava chegando aos 80 anos, foi o reconhecimento do seu trabalho como etnólogo, fotógrafo e pesquisador”, finaliza Arlete.

Arlete Soares (1940) -  é fotógrafa e editora. Baiana de Valença, aquariana e filha de Iemanjá. Mudou-se para Salvador ainda criança e formou-se em pedagogia. Deixou o Brasil durante o regime militar e foi estudar psicologia em Paris onde começou a fotografar. Fundou e esteve no comando da Editora Corrupio por mais de 40 anos. Atualmente se dedica à organização de seu acervo fotográfico de cerca de 15 mil itens, capturados entre os anos de 1968-2021. Conheça mais do Acervo Arlete Soares no Instagram.

Exposição
A exposição física do Prêmio acontecerá no Palacete das Artes, em Salvador, de 4 de novembro de 2021 (nascimento de Pierre Verger) a 30 de janeiro de 2022. Nela, o público poderá apreciar 41 fotos de autoria de Arlete na Mostra “Nítida Bahia”, com curadoria de Marcelo Reis e Goli Guerreiro. As fotos foram cuidadosamente escolhidas para retratar sua relação com Verger e com a cidade de Salvador. 

Fotos: Acervo Arlete Soares
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